Sobre a falsa concepção de Liberdade

“Na visão moderna, uma incontida liberdade pessoal é o único bem a ser buscado; qualquer obstáculo a isso é um problema a ser superado” (T. Dalrymple)

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(do filme Nymphomaniac, de L. von Trier)

Diga-me se não é gozado: atualmente, é preciso explicar para o sujeito que ele não é obrigado a estar engajado em todas as lutas, a aproveitar todas as festas, que ele não precisa viver intensamente e que não tem problema se ele acha que redes sociais são um porre. Quem me chamou a atenção para essa ironia foi esloveno Slavoj Zizek. Diz ele há um filme italiano no qual os personagens são incentivados a traírem seus respectivos parceiros afetivos, a viverem em orgias e, no meio dessa bagunça, um personagem sente a necessidade de confessar ao padre local que, no fundo, ele não sente atração por outras mulheres além da própria esposa, e que a vida entre bacanais realmente não o interessava em nada. Em suma: há 100 anos, o psicólogo fazia um esforço danado para livrar os indivíduos das amarras morais, em especial no campo sexual; hoje, o trabalho é no sentido contrário para mostrar que ninguém precisa gostar de tudo o tempo todo.

É nesse contexto que surge um problema (ou uma confusão tremenda) na concepção de liberdade que anda por aí na boca da juventude. Liberdade se tornou sinônimo de atender impulsos fisiológicos. Recusar-se a atender qualquer demanda fútil do próprio corpo é instantaneamente taxado como retrógrado, como conservador, como maluquice. Essa confusão toca em um ponto antigo da filosofia, qual seja, a relação entre corpo e mente, ou corpo e alma, ou ainda, entre o que no homem há de humano e o que no homem há de animal. Kant falava, por exemplo, da Razão Prática e da Razão Pura. A polaridade que representa, por um lado, as pulsões, os desejos quase irrefreáveis, a vontade, e por outro, a razão, o limite, o controle, é central no Idealismo Alemão (Schelling, Schiller, Hegel…).

Se concordarmos que o ser humano não é regido somente pelos seus impulsos (instintos) animalescos mais básicos, mas que também é capaz de tolir alguns desses desejos, ou ao menos canalizá-los e postergá-los, logo, diferente do que anda sendo dito por aí, a chave para a liberdade humana está precisamente em controlar, na medida do possível, aquilo que temos de impulso primitivo (más línguas dizem que Freud fez um desserviço para a humanidade nesse sentido…). O gato gateia, o sapo sapeia, o homem homeia, MAS TAMBÉM escreve poesia, reflete, faz política, etc., desde que não se entregue ao óbvio da sua própria natureza. Fugir das ações pensadas, refletidas, moldadas com muito esforço e dentro certos limites significa, portanto, ser escravo daquilo, em nós, já aconteceria bem no estilo “quer você queira, quer não”.

O mais trágico nesse cenário é que tal confusão acaba justificando comportamentos atrozes de indivíduos que fazem qualquer criacionista acreditar que o homem, de fato, veio do macaco. Dostoievski, em Os Irmãos Karamázov, já escrevia brilhantemente sobre isso:

“O mundo proclamou a liberdade, sobre tudo nestes derradeiros anos, e que representa ela? Nada mais senão a escravidão e o suicídio! Porque o mundo diz: “Tu tens necessidades, satisfá-las, porque possuis os mesmos direitos que os grandes e ricos. Não tema satisfazê-las, aumenta-as mesmo”. Eis o que se ensina atualmente. Tal é a concepção deles de liberdade. E o que resulta desse direito de aumentar as necessidades? Entre os ricos, a solidão e o suicídio espiritual; entre os pobres, a inveja e o crime, porque se conferiram direitos, mas ainda não se indicaram os meios de satisfazer as necessidades.”

Escondendo-se atrás dessa duvidosa concepção de liberdade, a juventude (ainda que não só os jovens) se entrega às mais variadas futilidades da vida. “Ah, o ser humano não foi feito para ser monogâmico”, afirmam alguns. “A pressão para que as pessoas se casem é uma forma de controle, de censura, de tolher a liberdade sobretudo das mulheres”. Estufam o peito na hora de lançar ao mundo declarações desse tipo sem perceberem que trocar de parceiro assim que os hormônios tintilam é uma forma de escravidão muito mais grave.

Os efeitos devastadores oriundos da propagação da suposta “liberdade” são descritos com toda sua crueza nos ensaios do psiquiatra britânico Theodore Dalrymple (vide o livro Nossa Cultura…ou o que restou dela). Um exemplo banal dessa problemática, e que sequer toca no campo sexual (tema delicado quando o assunto é liberdade), é o caso da alimentação. Ora, seguindo a versão contemporânea de liberdade, devemos ingerir alimentos que nos causam prazer imediato; e só devemos comê-los quando de fato sentirmos vontade. O resto é controle e autopunição. Horários, dieta, etiqueta, são meras invenções burguesas que ficam no caminho entre o indivíduo e sua própria liberdade. O leitor atento já deve ter inferido que, obviamente, é no controle que reside a liberdade, e que abrir mão dessa disciplina é caminhar em direção à desnutrição, na menos pior das hipóteses.

Dalrymple notou de forma perspicaz como isso explica a quantidade de infratores desnutridos no presídio onde trabalhava. Após meses na cadeia, os detentos recuperavam com rapidez a saúde nutricional. Bastava alguns meses em liberdade (!) para que a desnutrição avassaladora os transformasse em verdadeiros zumbis. Intelectuais britânicos jogavam a culpa na sociedade de mercado: ex-detentos são pobres e supermercados cobram caro pela comida, logo…

Acontece que, como observa Dalrymple no ensaio O Criminoso Faminto, a quantidade de dinheiro que os presidiários desperdiçam consumindo drogas já é mais do que suficiente para resolver o problema da fome nessa camada da população. Ademais, muitos deixam de se alimentar por conta dos efeitos colaterais das substâncias utilizadas. Mas a questão mais proeminente e que leva à destruição da saúde da população carcerária britânica (e certamente do Brasil também ) é a falta de regras, e controle, de disciplina em relação aos hábitos alimentares, em especial na infância e juventude. Seguindo o caminho da “liberdade”, esses jovens usuários e criminosos têm um histórico de vida familiar absolutamente desregrada na qual atividades como sentar-se a mesa para comer, realizar as refeições nas horas mais adequadas, comer aquilo que deve ser ingerido (e não o que se tem vontade), estão ausentes. Essa falta de hábitos escraviza aqueles jovens pelo resto da vida, os tornando ainda mais inaptos para o convívio em sociedade.

A situação se torna ainda mais macabra quando observamos os efeitos da “liberdade sexual” na constituição das famílias – assunto que também é pesquisado por Dalrymple. Para não correrem o risco de perderem um orgasmo sequer, pais e mães sacrificam o futuro dos próprios filhos, quando não suas próprias vidas. Em um dos casos relatados, o filho era frequentemente espancado pelo padrasto que, por sua vez, era tolerado pela mãe, apesar do seu comportamento social absolutamente inadequado, simplesmente porque ele era bom de cama. No ensaio Sexo e mais sexo, o tempo todo os exemplos são dos mais variados: de crianças abandonadas porque o pai ou a mãe decidiu que um outro parceiro seria mais interessante na cama a jovens de 13 ou 14 anos que desistem dos estudos para se dedicarem em tempo integral às atividades sexuais. A premissa é sempre a mesma: devemos buscar a “liberdade” sexual acima de tudo.

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(cenas do filme Killer Joe, de William Friedkin)

Não é preciso fast-forward esse filme por muito tempo para percebermos que indivíduos que tomam essas decisões acabarão no consultório do Sir Dalrymple desesperados para escaparem das covas cavadas por eles mesmos.

Aliás, essa premissa acima mencionada, antes de impregnar o discurso inflamado da juventude (e as atitudes também), passou pelas canetas de muitos intelectuais e escritores. Dalrymple lembra que,

“o uso de um linguajar explicitamente sexual se tornou rigor nos círculos literários, mas, ao mesmo tempo, periódicos médicos temem imprimir o termo “prostituta” e usam o delicado eufemismo “profissional do sexo” em seu lugar.”

Uma análise extensa da revolução sexual forjada nas obras de arte, em especial na literatura, pode ser encontrada no livro de Camille Paglia, Personas Sexuais. Um caso que me vem à mente é o de Marques de Sade. Ao quebrar todos os tabus morais que ainda infectavam o domínio do sexo, os personagens de Sade acabam se tornando prisioneiros das suas próprias perversões. O preço para atingir a liberdade sexual é a submissão e o masoquismo, afirma Paglia. Controle, hierarquia e regras não são extintas com a chegada da suposta liberdade. Com a quebra de tabus, o controle se intensifica e passa a ditar o tom da vida sexual dos indivíduos.

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(cena do filme Fifty Shades of Grey, de Sam Taylor-Wood)

Paulo Francis descrevia a classe média como “a barata tonta de todos os golpes que confunde zonzeira com liberdade e termina sempre sob o chinelo alheio”. Parece-me justo estender essa definição também aos profetas da nova “liberdade” que, no fim das contas, não passam de baratas tontas levando mais chineladas do que podem admitir.

Breve nota sobre a cultura do estupro. Ou: por que o nadador importa.

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Assim inicia Nelson Rodrigues uma de suas crônicas:

“Ontem, o meu fraterno colega entrevistou uma psicanalista sobre um dos problemas mais agudos do nosso tempo: — a juventude. E aí começa o equívoco. “Do nosso tempo” por quê? O jovem sempre foi problemático e, se não é problemático, estejamos certos: — trata-se de um débil mental que deve ser amarrado num pé de mesa. Vamos dar graças a Deus que a nossa juventude tenha um drama, uma angústia, uma tensão dionisíaca ou demoníaca, sei lá.

Mas a psicanalista começa a falar e logo percebemos o seu raro brilho e o seu casto saber. Por que o jovem está inquieto, tenso, vibrante, explosivo, perplexo e ameaçador? A culpa é da sociedade e da família. Quanto ao próprio jovem, a entrevistada não faz uma tênue insinuação ou uma vaga referência. O que importa é apenas a situação social. Como reles coadjuvante, a situação familiar.

E eu então vi subitamente tudo. Imaginei que, diante de uma prova de natação, a psicanalista havia de concluir: — “Quem nada é a piscina e não o nadador.” Minha vontade foi bater o telefone para a TV Globo e dizer: — “Minha senhora, não se esqueça do nadador.” Se vocês admitirem a comparação, eu diria que há, sim, um nadador no problema da juventude. Sim, o que está por trás da família, da sociedade, das gerações é um velho conhecido nosso, ou seja: — o homem.”

À guisa de explicação: não podemos esquecer que o personagem principal (leia-se “culpado”) de um estupro é o nadador, digo, o estuprador.

O Brasil de Fernando Gabeira

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O perfil do brasileiro malandro incomoda alguns, mas parece agradar a maioria. O famigerado jeitinho, a fama de preguiçoso, o andar gingado dos meus conterrâneos acima de tudo despertam a curiosidade, em especial nos povos que habitam do outro lado do Atlântico. Basta tentarmos acompanhar a passada de um alemão que caminha até a padaria numa manhã dominical para constatarmos que, de fato, somos um povo que se arrasta. Concordo que manhãs de domingo não exigem uma corrida de 100 metros rasos até o mercadinho da esquina e, nesse sentido, é o alemão que perde. Ainda assim, me parece inegável que brasileiros fazem vista grossa e tentam embelezar alguns problemas sérios de caráter que vêm no pacote do jeitinho. No livro O que é isso, companheiro?, do nosso atual ex-deputado Fernando Gabeira, há uma passagem que me soa no mínimo assombrosa:

“Saí correndo de Glasgow para Londres, pedi a passagem de volta à amiga que vivia comigo e ia diariamente à Varig para ver se tinha chegado. Em princípios de dezembro já estava no país. Desci primeiro em Guararapes, para comprar um maço de cigarros e tomar um café. Tinha uma nota de uma libra na mão e valia uns três dólares, creio. Pedi um café, comprei o Continental e perguntei quanto era. O homem do bar olhou para a minha mão e disse: uma libra. Caí na gargalhada e deixei o dinheiro aterrissar suavemente no balcão. Sem dúvida estava chegando ao Brasil e desempenhava com muito prazer o papel de otário.”

Ver graça em uma situação desse tipo exige um senso de humor que, sem dúvida, desconheço totalmente. Mas não é exatamente sobre o “papel de otário” desempenhado pelo senhor Gabeira que eu gostaria de falar. Apesar de este blog não ter como foco a política – e, portanto este texto figura como uma exceção – me sinto na obrigação de falar algo que já foi dito, mas como tudo, precisa ser repetido: OS PRESOS POLÍTICOS DA DIDATURA MILITAR BRASILEIRA NÃO LUTAVAM PELA LIBERDADE E MUITO MENOS PELA DEMOCRACIA. Isso mesmo, escrito em caixa alta. E quem me contou isso em detalhes foi o próprio Fernando Gabeira, no livro acima citado. Aliás, corrijo: é exatamente sobre o “papel de otário” desempenhado pelo senhor Gabeira que eu gostaria de falar.

A gota d’água foi um cartaz que vi circulando nas redes sociais nos últimos dias. Com fotos dos presos políticos, exilados e torturados entre 65-85, a imagem berrava em alto e bom tom que DIDATURA NUNCA MAIS! NÃO ESQUECEREMOS. Em caixa alta, mais uma vez. Ora, alguém deveria acrescentar a palavra MILITAR logo após DITADURA. Exatamente: ditadura militar nunca mais! Rumo à ditadura socialista/comunista! Do ponto de vista político, entendo a necessidade de os partidos de esquerda no Brasil evitarem o tópico “ditadura socialista” focando somente nas atrocidades da ditadura militar. O que me deixa estarrecido é usarem a crítica a governos totalitários (como nossa antiga ditadura) como argumento teórico para criticarem partidos de direita (ou simplesmente decisões políticas ou econômicas que não apetecem certas mentes iluminadas). A ditadura de esquerda no Brasil era almejada  declarada pelos próprios exilados, torturados e presos políticos.

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“Os líderes estudantis faziam um discurso articulado, com princípio, meio e fim. Edson Luís havia sido morto pela polícia que estava a serviço da ditadura, que estava a serviço do capitalismo. Não se tratava apenas de lutar contra a polícia, portanto, mas de participar num combate mais amplo e mais complexo que era o combate pelo socialismo. Ao contrário do que diz a repressão, aqueles líderes não pertenciam às organizações políticas. Mas de alguma maneira refletiam a luta interna cujos temas já haviam transcendido os limites da discussão secreta. Luta pelo socialismo e luta armada estavam portanto na ordem do dia.”

E para os esclarecidos que adoram dizer que não se combate violência com violência, Gabeira afirma que o desejo maior daquela juventude paz e amor era a luta armada. Roubar mercados e bancos (onde trabalhavam pessoas inocentes, aliás. Meras casualidades), falsificação de documentos e outros negócios ilegais (não vou nem falar aqui do tema central do livro, qual seja, o sequestro de um embaixador) não pesam na consciência de Gabeira e seus amigos.

“O sonho de muitos de nós era o de passar logo para um grupo armado. Em nossa mitologia particular, conferíamos aos que faziam esse trabalho todas as qualidades do mundo. Sair do movimento de massas para um grupo armado era como sair da província para a metrópole, ascender de um time da terceira divisão para o campeonato nacional.”

“Às vezes, precisávamos de uma série de documentos que, mesmo com um bom despachante, tomariam meses para serem aprontados, e, com a ajuda dos nossos falsificadores, produzíamos os mesmos documentos em apenas algumas horas.”

E se o leitor acha que ao menos esse grupo tinha bons motivos para agir de tal forma, sinto informar que essa é a parte mais ridícula da situação como um todo. Não havia embasamento teórico de qualquer tipo. Lendo as descrições de Gabeira, acredito que o termo “achismo” seja o mais adequado para indicar o que de fato movia a luta desses pobres diabos.

“As tarefas teóricas praticamente não existiam no horizonte das ocupações cotidianas. Eram vistas com desconfiança, apesar do nível geral ser muito baixo. Nenhum de nós havia lido O capital, nenhum de nós conhecia profundamente a experiência revolucionária em outros países, nenhum de nós, enfim, problematizara algum aspecto do marxismo, ou mesmo inventara um campo novo para pesquisar. Tendíamos a uma concepção muito estreita do movimento e muitos achavam, mesmo, que a ação era tudo. Pessoalmente, ao ler a trilogia de Isaac Deutescher sobre Trotski, fiquei escandalizado com os bolcheviques; Lenin pedira que Stalin fosse à Áustria, fizesse uma pesquisa e produzisse um artigo sobre as nacionalidades. Mesmo sem conhecer o texto de Stalin, achava que aquilo era um luxo, que era uma revolução altamente intelectualizada, comparada com a nossa e com a cubana. A cubana aparecia como o exemplo novo e revitalizador: uma teoria post festum e assim mesmo muito pouca.”

E lembremos que por “nós” Gabeira se refere ao grupo que sequestrou o embaixador norte-americano (no livro há detalhes sobre os momentos tensos que o embaixador passou na mão dos revolucionários…).

Não sei você, leitor, mas eu sintetizaria essa última citação do livro da seguinte forma: Nós revolucionários, lutávamos contra uma ditadura que perpetuava o capitalismo, e buscávamos instalar uma ditadura de esquerda, sem saber exatamente por que o capitalismo era tão ruim, visto que não estudávamos o suficiente e gostávamos de ser tratados como otários no Brasil, e sem saber exatamente como, já que ignorávamos os movimentos internacionais e estávamos ansiosos para iniciar uma luta armada.

Fernando Gabeira tem hoje 75 anos. Entrou para a política e fundou o PV. Até 2011 atuava como Deputado Federal. Algumas das suas pautas são a regulamentação da prostituição, casamento gay e descriminalização da maconha.

Não me pergunte como, mas o revolucionário socialista conseguiu bancar sua educação e parte da vida na Suécia. Aliás, também na Suécia Gabeira encontrou outra revolucionária com quem se casou. Após o divórcio, se casou com uma estilista e, atualmente, sua terceira esposa é atriz e empresária. Uma de suas filhas é surfista profissional.

Eu poderia salientar o quão irônico é o fato de um revolucionário da esquerda brasileira ter morado, estudado, e casado em uma das cidades mais caras do mundo; poderia ainda chamar a atenção do leitor para as profissões exercidas pelas parceiras de Gabeira e também pela sua filha, que ganha a vida estampando marcas de multinacionais (me refiro aos patrocínios); mas acredito que se o brasileiro não percebeu ainda nosso papel de otário, é porque partilha do senso de humor de Gabeira.

A Pátria de Chuteiras Revisitada. Ou: lições do 7×1

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“Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. Precisaria ser camelô no largo da Carioca. Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.”

Amigos (não poderia haver início melhor para um blog do que a saudação de Nelson Rodrigues em suas crônicas: Amigos!), confesso que a primeira coisa que me chamou a atenção nos ensaios de Nelson Rodrigues reunidos no livro A Pátria de Chuteiras foi o uso da palavra escrete. Mas para além do meu vocabulário limitado, as análises sobre o futebol, mais especificamente sobre nossa seleção, que aparecem no tal livro causaram uma verdadeira reviravolta no espírito saudador de Messi (e até mesmo de Di(mais) Maria! devo confessar) e crítico de Neymar deste que voz escreve.

Pois eis que a cada nova página do livro, minha intenção de escrever um breve ensaio para gritar aos quatro cantos que Nelson errou quando disse o que disse sobre nosso futebol se transformava em autocrítica, ficando cada vez mais claro que errado estava eu.

Uma ressalva fundamental: quando Nelson vibra com a suavidade e honestidade (sim, honestidade!) dos jogadores brasileiros frente aos adversários europeus, confesso que me arrepiam os pelos da nuca. E nesse caso, minha perspectiva revisionista ganha força.

“o craque brasileiro é muito mais doce, mais educado, mais cavalheiresco do que o europeu. E argumentei com o nosso comportamento exemplar nos três últimos Campeonatos Mundiais. Nas três oportunidades, o brasileiro foi inexcedível na sua conduta disciplinar. Ninguém se lembra de um foul desleal dos nossos. Em 58, contra a França, fomos garfados da maneira mais deslavada. Tivemos que fazer três gols para que um valesse.”

Basta comparar o desempenho dos brasileiros jogando na Europa (vide Neymar e Messi, ambos no Barcelona) para questionarmos: Será mesmo, Nelson? Aliás, o fair play que acompanhamos nos campeonatos e copas da Alemanha continuam fazendo qualquer brasileiro morrer de vergonha ao assistir a Copa Libertadores da América. Pois é, Nelson – melhor aceitarmos que essa crônica ficou limitada àquele ano.

Mas eu ia dizendo que as páginas do livro me faziam mudar de ideia pouco a pouco. Explico. E explico filosoficamente: Hegel dizia que todos os grandes eventos da história sempre acontecem duas vezes; e Marx completou que na primeira vez eles aparecem como tragédia, e na segunda, como farsa. Ora, mas eis que a enxurrada de críticas avacalhando o escrete brasileiro pós 7×1 não é novidade. E pior: aconteceu quando o escrete galgava seu caminho de glória, com ninguém menos que Pelé e Garrincha!

E é nesse ponto que aparece a perspicácia de um Nelson Rodrigues. O gajo já sabia que não importa o quanto os europeus estudem, analisem e tentem desmontar nosso futebol. At the end of the day, a individualidade de um Neymar (não esqueçamos de Douglas Costa, Gabi Gol, Gabriel Jesus…) ainda é capaz de trazer o caneco para casa. Concordo que depois do supracitado resultado vergonhoso da semifinal da Copa de 2015 é difícil não dar o braço a torcer para a superioridade do futebol coletivista, de estratégias dignas de um engenheiro – me refiro, claro ao futebol Alemão. Mas eu avisei; aliás, Nelson avisou: isso não é novidade! E esses críticos estão redondamente equivocados:

“Mas vejamos as suas verdades. Diz ele que a Copa do Mundo de 66 veio trazer o “futebol brasileiro à realidade”. Ao ouvir falar em “realidade”, poderíamos perguntar: — “Qual delas?” E, então, Chirol explica a “sua” realidade. Diz textualmente: — “O personalismo não é mais concebido dentro de uma equipe, e sim o coletivismo.” Percebe-se que, ao falar assim, o simpático treinador vibra de certeza inapelável e eterna.”

“A meu ver, a teoria do Chirol apresenta dois defeitos: — primeiro, é inexequível; segundo, é indesejável. No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais — será a morte do próprio homem. Amigos, não sei se bem entendi. Mas para fazer o seu futebol impessoal e coletivista, o caro Chirol terá de preliminarmente mudar o homem. Para isso, terá que pedir à diretoria do clube uns vinte séculos ou mais. Note-se, porém: — antes dele, Cristo tentou a mesma coisa e fracassou. Os pulhas estão aí, impunes e bem-sucedidos.”

E se não é essa a crítica proferida pela pátria amada pós 7×1. E para finalizar esse texto introdutório, mais algumas pérolas observadas por Nelson e que seguem na boca dos entendidos de futebol do Brasil:

“Hoje, vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda a parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!” E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?”

“Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: — “Quem ganha amanhã?” Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: — “Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter.””

Em poucos meses nosso escrete entra em campo para, quem sabe, lembrar o brasileiro de que, mesmo aos trancos e barrancos, somos nós os penta campeões. Seja a tese de Nelson sobre o futebol comprovada novamente ou não, os ensaios reunidos em A Pátria de Chuteiras seguem interessantes, se não pelo futebol, ao menos pelo de Brasil retratado por Nelson.