Arte conservadora?

Um dos temas que apareceu de forma modesta no debate público recentemente (seguindo o agravamento da situação do PT no comando do país) é a função dos artistas na vida política do Brasil. Enquanto atores, compositores, escritores e outros artistas abraçavam tal ou qual lado da história, uma premissa endossada pelos membros da esquerda me chamou a atenção. É verdade que ela não permaneceu no centro do argumento esquerdista, mas ainda assim me suscitou alguns pensamentos que apresentarei aqui. A ideia era mais ou mesmo a seguinte: só há arte de esquerda; não pode haver arte conservadora, pois arte está eternamente entrelaçada com a quebra de paradigmas, com a quebra de tabus; por isso, uma arte conservadora traria consigo seu próprio túmulo.

Meus two cents sobre essa questão serão, na verdade, three cents. Primeiro gostaria de lembrar-vos que um dos papas da esquerda, Theodor Adorno,  já explicou muito bem explicado que julgar o viés político de uma obra de arte ou de um artista é muito mais complexo e ambíguo do que parece. Em seguida, apresentarei exemplos de compositores geniais e inventivos, e que podem sim, até certo ponto, ser identificados como conservadores. Para terminar a ladainha, acho fundamental lembrarmos, contudo, a importância de manter a arte, sempre que possível, acima de questões políticas. Encerrando essa distância, corremos o risco de aniquilarmos o pouco que nos resta de Alma. Sem mais delongas, que entre a primeira testemunha.

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Theodor Adorno, uma das figuras centrais da Escola de Frankfurt, corrente responsável por aplicar concepções do marxismo na análise cultural, argumenta extensamente no livro Introdução à Sociologia da Música sobre os equívocos de buscar ligações unívocas entre certas músicas e ideologias políticas. Julgar que porque certo compositor apoia este ou aquele governo ele apresenta as condições necessárias e suficientes para que certa ideologia seja traduzida em sua arte (assumindo, claro, que o tal compositor faz arte), é um equívoco tremendo. Aliás, tomando ao pé da letra o discurso de Adorno, entendo por que compositores de música popular (e de esquerda) no Brasil raramente fazem menção à sua filosofia/sociologia da música: Adorno despreza a música popular. Para o filósofo alemão, seguindo os desdobramentos do marxismo, qualquer manifestação de música popular dentro de uma sociedade capitalista nada mais é que propagação da ideologia vigente, já que não tem autonomia enquanto obra de arte. A música popular precisa buscar apoio em noções extra-musicais, como discursos políticos, por exemplo, deixando de lado aquilo que a arte tem de mais avesso ao capitalismo, sua autonomia, sua falta de “necessidade” ou de aplicação prática. A música popular brasileira (incluindo os “vanguardistas” ou as “canções de protesto”), na visão de Adorno, seria considerada, enfim, uma reles música de consumo cuja única função é propagar a ideologia (capitalista) dominante, por mais que almeje uma suposta emancipação em seus discursos. Na teoria de Adorno, aliás, pouquíssimos compositores (e todos eles “eruditos”, como diríamos) deram conta de dobrar o material musical de tal modo a não reproduzir uma ideologia, mas superá-la em emancipação através da música. Portanto, o ato mais radical e anticapitalista que os compositores de música popular no Brasil poderiam empreender é, paradoxalmente, se calarem (musicalmente, digo).

É nesse contexto que Adorno vislumbra a quase impossibilidade de identificar relações verdadeiras entre o que podemos encontrar em certo tipo de música ou repertório e posições ideológicas. Observar os comportamentos e preferências dos ouvintes ou mesmo dos compositores também não resolve o problema, diz Adorno. Moldados pela ideologia capitalista, os ouvintes sequer são capazes de identificar na música quaisquer elementos que desmintam, por assim dizer, a farsa capitalista. E os exemplos da história da música não deixam dúvidas de que compositores com posturas políticas diversas e vindos de classes sociais distintas conseguiram dialogar com práticas (poéticas) musicais similares. Em suma: nem a própria teoria marxista salva nossos “compositores (auto-intitulados) revolucionários”.

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Mas deixemos de lado a visão marxista do problema e vejamos alguns compositores de primeiro escalão e que podem sim, até certo ponto, ser identificados como conservadores. Digo “até certo ponto” porque não analisarei aqui de forma detalhada como as peças em si transmitem (ou podem transmitir) um pensamento conservador. Os exemplos serão gerais e a relação com o conservadorismo será mais intuitiva do que sistemática. Aos exemplos:

Música Sacra – antes de existirem boy bands de música gospel, compositores de mão cheia eram encarregados de escrever as missas, as celebrações e réquiens. Algumas das peças mais belas do repertório ocidental foram compostas por homens de fé, e em muitos casos sob tutela da própria Igreja. Sugestões: A Paixão Segundo São Mateus, de J.S. Bach; Spem in alium, de Thomas Tallis; qualquer uma das missas de Palestrina; L’ascension, de Olivier Messiaen (até um vanguardista!).

Música Clássica/Romântica – entre os século XVIII e início do século XX, a produção musical de cunho orquestral foi realizada através de um forte diálogo com a tradição. O período, que representa a consolidação, expansão, e os primeiros sinais de rompimento com a música tonal só foram possíveis porque os compositores estudavam de fato o que os mestres das gerações anteriores haviam escrito. Beethoven foi aluno de Haydn e também era curioso acerca de um tal de Mozart (há lendas de que houve um encontro entre ambos). Não à toa, os três configuram a chamada Primeira Escola de Viena. Como sugestão, recomendo a escuta dos quartetos de cordas desses mestres na seguinte ordem, se é que posso chamar isso de ordem: ouça primeiro Haydn, alguns dos primeiros quartetos e alguns dos últimos; então, faça a mesma coisa com os quartetos do Mozart (não esquecer do n.19!); por fim, ouça os primeiros quartetos de Beethoven e alguns exemplos dos late string quartets. O desenvolvimento dessa forma musical, por assim dizer, é nítido. E digo mais, é belíssimo de se ouvir. As alterações na forma são graduais, conscientes, com a certeza na ponta do lápis (ou da pena) do compositor (e tudo isso culmina em Brahms, Schumann, e, finalmente, na Segunda Escola de Viena). Não há movimentos espalhafatosos de gente querendo romper paradigmas para sair bem na capa da revista.

Música de Vanguarda – refiro-me aqui, antes que o leitor levante a sobrancelha em sinal de desconfiança, à sequência de compositores que emerge em especial após a segunda metade do século XX e continua até hoje. E, sim, eles são majoritariamente e abertamente de esquerda. Adivinha onde eles estão? Exato, na universidade, trabalhando como professores de análise, composição, percepção, etc. O que há, então, de conservador nessa música? A meu ver, há no mínimo um elemento em comum entre o conservadorismo e alguns (ao menos alguns…) dos compositores de vanguarda: o respeito à tradição. É certo que, do ponto de vista ideológico, eles defendem figuras que querem mais é queimar bibliotecas, acabar com padrões morais, apagar parte da história. Mas, enquanto compositores, esses camaradas possuem não só um vasto conhecimento da tradição (conhecem a história da música, sabem escrever contraponto, apreciam compositores barrocos, clássicos, românticos, e modernos, enfim…) como almejam dialogar com essa tradição (o que não significa necessariamente que eles atingem esse objetivo). Veja, por exemplo, a música de Flo Menezes ou Luciano Berio (até Adorno, que era compositor, estimava a relevância da tradição musical!)

Até o momento vimos que analisar peças musicais procurando elementos que entreguem seu viés político, seja ele qual for, é em si uma tarefa inglória, de modo que a tentativa dos artistas (músicos) brasileiros engajados com a ideologia esquerdista é um tiro no próprio pé, tomando como referência a Escola de Frankfurt. Vimos ainda que, malgrado a talvez impossibilidade de traduzir no material musical ideologias políticas, há compositores, dos mais variados e do alto escalão, que podem ser identificados de certa forma com o viés conservador – ao menos quando observamos o contexto em que suas obras foram produzidas (a relação de afeto com a Igreja e com a Fé; o convívio respeitoso com a tradição; etc.)

Resta apenas uma observação antes que o leitor feche este texto para visualizar as atualizações na sua rede social (se é que ainda não o fez). Nesse contexto conturbado que vivemos, com (sub)celebridades se passando por artistas, analistas políticos, formadores de opinião e afins, a batalha dos artistas de verdade, e falo agora de todas as artes, não só da música, deve ser impedir que a arte seja politizada – para qualquer um dos lados. Caso a direita impulsionasse uma produção artística nacional que respondesse diretamente aos anseios ideológicos dessa corrente, cairíamos naquilo que mais se critica na esquerda: o fim da vida privada, do pessoal, da natureza humana, da alma. Tudo isso seria diluído na vida estatal que, por sua vez, seria comandada pelos burocratas. Um dos méritos da direita é justamente querer preservar esse âmbito da liberdade individual, onde os cidadãos têm espaço para formarem sua visão de mundo sem terem de responder ao Partido.

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A feminista rechaçada pelas feministas Camille Paglia levanta essa bandeira há algum tempo (vida a entrevista Everything’s awesome but Camille Paglia is unhappy). Para a autora, limitar a arte à agenda dos movimentos sociais é pedir para surgir um novo Hitler ou Stalin. Aliás, sobre esse último, assistam o filme Child 44 e vejam a dissolução da vida privada como a ditadura última. Nada pode ser dito sem que o partido tome conhecimento e, claro, “there is no crime in paradise”, therefore, ou o artista segue a agenda do partido, ou…. Já ouviu falar do Shostakovich?

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(Cena do filme Child 44. Uma família conversa livremente durante o jantar)

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