Duas recomendações para o dia dos namorados

Mulher que não dá voa – já dizia o ditado popular. E mulher que não trai, também voa? Desculpem-me, leitoras, mas esse é o humor de quem precisa trabalhar em pleno domingo. E, claro, humor de quem passa o dia dos namorados solteiro. Mas sobretudo de quem trabalha na manhã fria de domingo. Permita-me recomeçar.

Prezados e prezadas, apresento-vos hoje duas maravilhas para serem apreciadas no dia dos namorados (ou em qualquer outro dia, desde que seu parceiro (a) esteja presente de corpo e alma). Um filme e uma ópera, que devem ser vistos na ordem contrária: primeiro esta, depois aquele. Minha única preocupação aqui é que os interessados já tenham visto o filme, que é de 2004. Mas que sujeito desatualizado sou eu. No mais, duvido que haja conteúdo melhor para ser apreciado em casal. Beldades hollywoodianas, ótimas intrigas, papo cabeça, sem ser maçante, e toda a introspecção que só a música pode trazer (diz Schopenhauer).

closer

O cast do filme Closer é sensacional, ao menos em termos de beleza. Natalie Portman, Julia Roberts, Jude Law e Clive Owen. A trama é baseada no libreto de uma ópera, sobre a qual falarei em breve. Não me recordo dos nomes dos personagens, e por isso empregarei os nomes dos intérpretes. Ano 1: Jude Law conhece Natalie Portman,  recém chegada em Londres. Ele é um escritor fracassado, ela trabalha na versão européia e limpinha da profissão mais antiga do mundo – é stripper. Ano 2: Law escreve um best-seller sobre a vida de Portman, que agora é sua parceira. Durante o ensaio fotográfico para lançamento do material, Law descaradamente flerta com Roberts, a fotógrafa, sugerindo um affair entre eles. Portman saca tudo; não fala nada. Anos 3: Julia Roberts conhece Clieve Owen, um dermatologista, e logo começam um relacionamento. Meses depois, em uma exposição de Julia Roberts, os dois casais se encontram e, finalmente, Law faz a cabeça de Roberts e os dois começam a ter um caso que dura um ano. Os pecadores confessam o affair para seus respectivos parceiros, Portman e Owen, e a partir daí a confusão é geral. Owen e Portman se aproximam, Law e Roberts finalmente entram em um “relacionamento sério”, e não conto mais anda para não estragar o filme. É suficiente dizer que ocorrem ainda muitas idas, vindas e descobertas, sempre com os dois pastelões achando que estão no controle da situação.

Cosi fan tutte

Chegamos, enfim, à Ópera. Così fan tutte, libreto de Lorenzo da Ponte e música de Mozart filho (a mesma parceria foi repetida em Don Giovanni), estreou em Viena, 1790. Como na versão moderna de Closer, aqui também observamos dois bonachões, duas beldades, e o imbróglio dessas relações. Mas as discórdias, neste caso, são semeadas por um terceiro (ou quinto?), que atende pela alcunha de O Filósofo (que maldade…). O filósofo é cético, e como tal, não acredita na fidelidade das mulheres. Observando dois soldados certos do amor de suas pretendidas, o Filósofo não se aguenta e propõe o seguinte desafio: os dois soldados deverão fingir uma viagem para a guerra e, após anunciarem para suas amadas a partida, voltarão ao vilarejo fantasiados de ricos comerciantes. E mais: para colocar uma pedra no assunto, os “comerciantes” deverão pedir as beldades em casamento. O Filósofo adverte: em pouco tempo, as duas esquecerão o voto de fidelidade aos soldados e se entregarão aos novos amantes. Para deixar a coisa ainda mais interessante, ao voltarem como homens de negócios, os soldados passam a cortejar um a pretendente do outro. Dito e feito. As damas mudam de ideia (novidade!). Ok, sejamos justos: a governanta da casa dá uma mãozinha ao Filósofo, lembrando as damas diariamente das benesses de sucumbir aos comerciantes galanteadores.

A mulher e, por tabela, a relação entre homens e mulheres, foi descrita pelas mais hilariantes analogias na história da cultura ocidental, a começar pela ideia de Mãe Natureza. As forças incontroláveis e avassaladoras da Mãe Terra, que provê o necessário à subsistência, mas tem um braço de ferro para extinguir espécies inteiras. A inconstância da Mãe Natureza – os ciclos. Enquanto escrevo este texto, aliás, o vizinho de cima, que é personal trainer, resolveu montar uma banda e agora ensaia Mulher de Fases, daquela banda, Raimundos (viu que o cara se converteu? That’s so 2000’s, babe, she said).

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(Vênus de Willendorf)

Qualquer contato entre a figura feminina e o homem, apolíneo, é marcado pelo conflito. Brincar com a Mãe Natureza é brincar com fogo! Essa analogia entra na dimensão familiar com a figura materna descrita por Freud.  A relação entre homem e mulher é sempre tensa, visto que o homem, conceitualizador, objetificador, possui algo que precisa ser mergulhado na auto-suficiência instável e dionisíaca da mulher. É arriscado! Para mediar isso, o homem erotiza a mulher, suas belas formas, etc. (devo esses insights à Camille Paglia em Sexual Personas). Temendo o canto hipnotizante das sereias, Ulisses colocou algodão nos ouvidos dos seus marinheiros, pediu para ser amarrado na haste do navio, e alertou: quando eu começar a me debater, remem mais forte, pois estamos nos aproximando da ilha onde as sereias habitam!

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(Busto Nefertite)

Espero que os casais possam tirar proveito dessas informações. E sigamos o conselho do Filósofo da Ópera de Mozart: perdoem suas amadas, pois così fan tutte, assim são todas as mulheres. Um ótimo dia dos namorados a todos!

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