Beethoven, proprietário de um cérebro

Haydn, o submisso. Mozart, o descontente. Beethoven, o revolucionário.

O responsável pela descrição (-ish) acima é nada menos que Richard Wagner. O talento do dito cujo para a escrita já me era conhecido, não só pelos seus Gesamtkunstwerken, mas também pelo seu estudo sobre arte e religião. O ensaio produzido por Wagner sobre Beethoven, contudo, me passou ao largo por muitos anos. Agora que o li, sinto-me na responsabilidade de garimpar um ou dois pontos que muito me interessaram.

O ensaio tem cerca de 100 páginas e, grosso modo, está dividido em 3 partes: muitas linhas sobre a concepção schopenhauriana de música; o gênio de Beethoven; e a decadência cultural da Alemanha do século XIX. É quase um estudo de caso. Wagner estabelece os conceitos fundamentais, aplica-os na análise da obra de Beethoven, e tira disso algumas conclusões que iluminam as dificuldades enfrentadas pela cultura da Alemanha de então.

Filosofia da Música de Schopenhauer

A parte inicial, sobre Schopenhauer, é uma aula de filosofia da música. Uma aula introdutória, é verdade, mas cerca os pontos essenciais do tema. A música, diz o filósofo, revela a Vontade. Ela apresenta sem intermediários a Verdade ao espírito do ouvinte que a contempla e, só então, pode-se experienciar a unidade das coisas (em oposição ao mundo fragmentado da Representação). As formas, como no caso das artes visuais, podem, eventualmente, elevar o espírito a tal estado – o que ocorre através da introspecção, quando o espírito escorre pelas formas e pode contemplar sua unidade. Aqui, Wagner aponta o dedo para a onda formalista da crítica musical, em especial para a filosofia da música de Hanslick. A música não precisa das formas para atrair o espírito do ouvinte até a Ideia – esta é apresentada (não representada) àquele.

Os precursores de Beethoven e a decadência da música alemã

Para Wagner, com exceção do surdo Beethoven, todos os outros compositores sucumbiram aos floreios, aos maneirismos da época, aos padrões de fácil acesso para o grande público. Nem Bach filho (Emmanuel), nem Bach pai escapam da crítica wagnerina, ainda que este último seja apontado no livro como o mestre supremo de Beethoven. Mais interessante, porém, é a relação que Wagner traça entre os membros da Primeira Escola de Viena. Haydn é a figura do compositor submisso: aceita de bom grado (ou ao menos finge aceitar) sua posição na corte como um mero empregado. Suas melodias fáceis, como na música italiana, refletem sua submissão e obediência ao grande público. Não à toa, Haydn e Beethoven nutriam uma relação tão áspera. Mas, antes de Beethoven, há a transição: Mozart. Esse morreu cedo demais para alcançar a revolução do seu sucessor na Escola de Viena, diz Wagner. Não conseguiu atingir o nível de radicalidade beethoveniana. Mas seu desgosto e revolta pela vida da corte eram óbvios. Seu nível de obediência pelos seus “superiores” era o mínimo necessário para que não passasse fome. Um ambiente cultural onde não precisasse mais depender da realeza, eis o que Mozart almejava (vide o estudo “Mozart – a sociologia de um gênio”). E eis o que Beethoven viveu. Essa mudança social, com a ascensão de uma burguesia interessada em música, foi central para que Beethoven retirasse a música alemã do estado de decadência no qual se encontrava.

O gênio de Beethoven

E aí mora a grandeza de Beethoven: sua música, sem precisar inventar uma gramática nova, consegue ser a aia da Vontade. Sua melodia não é mais um divertimento de fim de semana, como acontecia nas óperas italianas. Ao elevar sua música, sobretudo através da melodia, para tal patamar, Beethoven eleva junto o espírito alemão, que pode agora emergir das águas turvas. A melodia de Beethoven não se move mais de acordo com os gestos dos bailarinos, ou seguindo os vícios dos cantores. Muito menos sucumbe ao paladar dos príncipes e princesas. Detalhe interessantíssimo: isso tudo não impediu Beethoven de buscar inspiração no meio popular (o popular mesmo!), vide o vasto uso que o gênio fez de melodias húngaras, francesas, escocesas, russas, e do mundo afora.

O que há de comum entre Beethoven e Shakespeare

Além da tríade submissão-descontentamento-revolução, Wagner estabelece algumas conexões entre o gênio de Beethoven e o de Shakespeare, também à luz a filosofia de Schopenhauer. Em um livro de Arthur Nestrovski, chamado Ironias da Modernidade, as conexões entre os mesmos dois figurões aparecem em estado potencial, separadas por algumas páginas. De qualquer forma, está lá que Shakespeare inventou o homem moderno. Não há nada pós Shakespeare que não esteja nele contido. O mesmo se dá com a música de Beethoven. O homem moderno aprendeu a ouvir música a partir do gênio alemão.

Para Wagner, o bardo foi capaz de apresentar a própria vida no palco. E note que isso não é qualquer coisa. Com exceção da música, as outras artes podem, somente com muito esforço, elevar o espírito do homem à contemplação do uno – isso tudo, claro, mediado pelas formas. A obra de Shakespeare, porém, é uma clarividência, é o sono mais profundo (a Vontade) sendo acessado imediatamente sem o intermédio de um segundo sonho (os fenômenos, ou as formas). O espectador fica como que sonâmbulo a ver espíritos, assistindo a vida acontecer ante seus olhos arregalados.

Na música, Beethoven foi o gênio responsável por semelhante façanha. Com ele, a arte dos sons foi liberta do casulo das representações, e pôde ascender ao domínio da Vontade. Os ouvintes, com Beethoven, são arrebatados diretamente pela Vida, e não mais por frivolidades formais. Às favas com impressões rasas e agradáveis: Beethoven mostra que a salvação da cultura alemã está no domínio do denso e do sublime.

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