A linguagem dos aliens em A Chegada

Não fosse essa estranha habilidade de criar memórias do futuro, talvez não fosse mesmo possível qualquer tentativa de aproximação entre o filme The Arrival e as filosofias de Leibniz e Peirce. Claramente há no filme (traduzido no Brasil por A Chegada) inúmeras referências a temas filosóficos, questões existenciais, e diálogos com clássicos da ficção científica que enfrentaram cinematograficamente os mesmos temas. Isso foi demarcado veementemente pelos críticos de cinema. Mas, aquela estranha habilidade…

O roteiro de Eric Heisserer foi dirigido por Denis Villeneuve, e o resultado chegou aos cinemas em 2016. Objetos desconhecidos e de formas e tamanhos descomunais pousam em diferentes regiões da Terra mobilizando, com sua chegada, políticos, militares e todo o tipo de indivíduo capaz de fazer sentido daquela situação. No complexo desenrolar, o filme abrange as diferentes reações despertadas por um tal acontecimento. Como é de se esperar, forças armadas preparam-se para um ataque. Líderes sentem o peso da responsabilidade por suas respectivas nações. Cientistas querem garantia de que aquilo tudo não irá explodir – ou, eventualmente, certificar-se de que podem tudo aquilo explodir. Mas o protagonismo é dado à tentativa de comunicação entre humanos e os aliens que, para nosso deleite, é apresentada magistralmente.

A lingüista Louise Banks (Amy Adams) é convocada para compor o grupo de cientistas norte-americanos – sinal de que os extraterrestres se comunicam. E, de fato, as criaturas parecem expressar-se de forma peculiar e tão rica que, para além das conseqüências do filme, o tema enseja mesmo um interessante debate sobre linguística, comunicação, semiótica e teorias afins. Explico: o tipo de comunicação alienígena encenada no filme leva às últimas conseqüências um aspecto por vezes ignorado da comunicação humana. Esse aspecto é a dia-gramática, ou a linguagem dos diagramas.

Parte do filme é dedicada ao processo de aprendizagem das duas línguas – o inglês e os signos dos aliens. Banks, com o auxílio de outros soldados e cientistas, emprega sons, escrita, desenhos e gestos. Os aliens, retratados como tentáculos gigantes, como que desenham intrincados símbolos na superfície que constantemente os separa dos humanos – aliens pintores. Entre as repetidas tentativas de afinação entre os dois interlocutores, aumentam a tensão e impaciência dos envolvidos diretamente no contato. O progresso de Banks tentando desvendar os símbolos alienígenas é vagaroso.

Lá pelas tantas, com Banks cada vez mais segura de que os aliens não só estão compreendendo tudo, mas também se esforçam para ensiná-la linguagem diagramática, o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), que acompanha o processo desde o início, interroga Banks sobre se ela já é capaz de sonhar no idioma dos aliens. Nisso reside uma mensagem central do filme e que nada tem de ficção – pois, o que significa isso ‘pensar em outro idioma’?

Ora, em The Arrival, a linguagem dos aliens é diagramática. O complexo de traços que os tentáculos desenham na superfície transparente cada vez que tentam se comunicar inclui, simultaneamente e em um espaço de duas dimensões, um amplo conjunto de relações temporais. Estas aparecem sintetizadas, como que congeladas em cada símbolo diagramático da linguagem alienígena. O que Banks descobre como sendo a dádiva dos aliens para a raça humana é exatamente sua linguagem: um conjunto de representações diagramáticas que sintetizam e permitem pensar uma cadeia de eventos temporais, desde o mais primevo ao futuro mais distante. Os símbolos da linguagem alienígena contêm, em representações estáticas interpretadas pelo pensamento, todo o passado e todo o futuro. Aprender a pensar com esses diagramas, como o faz a lingüista Banks, é ascender ao Todo.

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O curioso é que essa linguagem diagramática, em certa medida, não é-nos estranha. Matemática e lógica são, grosso modo, representações ou invenções diagramáticas. Mapas, esquemas, modelos, são, em grande parte, signos diagramáticos. Mais: ainda que não possam ser reduzidas a diagramas, em parte também são diagramáticas as imagens mentais que lançamos mão ao considerar um cenário possível – o caminho a seguir; a próxima frase; uma ordenação qualquer; uma trajetória.

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Para Leibniz, é porque somos capazes de um ‘pensamento cego’, ou seja, inventar signos para pensar lá onde não conseguimos abarcar com nossos sentidos (o muito longe, muito grande, etc.), é por isso que participamos da mente divina. Somente Deus tem à disposição o diagrama do Todo, contendo o passado e o futuro. Em nossa frivolidade, avançamos em domínios de complexidade tremenda – como no caso da matemática – justamente porque dispomos da habilidade de inventar e operar símbolos que exigem não mais que caneta e papel.

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Interessante, também, é notar como esse pensamento através de diagramas está intimamente ligado a nossa própria conduta no mundo. Para além do trabalho intelectualizado de um astrônomo ou de um geômetra que tem nos diagramas a representação daquilo que não pode ser visto diretamente, Charles Sanders Peirce insiste em como a construção de diagramas nos permite antecipar e ensaiar condutas futuras. Através desse ensaio ou antecipação, criamos memórias, registros de uma situação que, por ora, está contida num simples diagrama, mas que, no futuro, poderá ser a conjuntura real dos fatos. E quando esse momento chegar, saberemos como agir.

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2 comentários sobre “A linguagem dos aliens em A Chegada

  1. Eu gostei da dramaticidade da obra A chegada e, sobretudo, no que tange às peculiaridades que nos faz refletir quanto ao poder que, a vontade assume em querer interpretar a linguagem dos aliens ignorando quaisquer possibilidades de “agressões” por parte dos mesmos, lógico que não em um primeiro momento.
    O raciocínio diagramático me parece ser uma prova de que a evolução da linguagem humana se relaciona diretamente com a modelagem e transformação de tudo que abarca o ambiente vivencial em imagens e representações – como as linhas de Nazca, por exemplo, variando no âmbito cultural, é claro.
    Enfim, ótimo texto. Parabéns.

    Curtido por 1 pessoa

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