Notas entre aeroportos

A situação era a seguinte: avião lotado; voo de aproximadamente três horas; verão; cerca de meio-dia em uma terça-feira. Com todos os passageiros dentro da lata de sardinha, ouve-se a voz do comandante: “a torre mandou avisar que o aeroporto está lotado e por isso temos que esperar mais quinze minutos”. Nota-se uma leve inquietação entre os passageiros. Avião decola e, em seguida, vêm as aeromoças para servir a gororoba. Desta vez era frango – ou algo muito parecido -, um pouco-quase-nada de arroz, pãozinho bisnaga de ante-ontem, e um bombom sem vergonha. Entre as bebidas, nada de especial também: suquinho de laranja e maçã, chá, café, água e qualquer coisa alcoólica que não me recordo de momento. Refeição feita, hora de ir ao banheiro. Melhor: hora oficial de todos os passageiros levantarem-se e para ir ao banheiro. A fila é longa, atrapalha os comissários de bordo, e pessoas tomam a frente uns dos outros desesperadamente. Novamente ouve-se o piloto dizer qualquer coisa ininteligível, mas relacionada aos procedimentos para pousar. Aeromoça sinaliza de forma enfática para uma mamãe jovem e bela na fila ao lado que ela deve desligar o celular, o tablet da filha, colocar os dispositivos em seus devidos lugares, e apertar os cintos. Obviamente, a mamãe jovem e bela faz aquele “me engana que eu gosto”, espera a aeromoça sentar-se e volta a ligar o celular e também o tablet da filha. Ao pousar da aeronave, ouve-se aplausos e gargalhadas vindas do fundo do avião seguidas por um novo aviso do piloto: “pedimos que aguardem sentados, pois houve uma alteração de última hora no local de estacionamento da aeronave.” A paciência  enquanto espera-se para esticar as pernas é curta-quase-inexistente e, por isso, mesmo tendo escolhido uma das primeiras poltronas, sou um dos últimos a sair. Ah, sim, já ia me esquecendo: esse foi um voo dentro da Alemanha.

Enquanto todos esses factores me saltavam aos olhos com a mesma clareza que os mesmos impunham-se fisicamente, lembrava-me constantemente do divertido texto de Francisco Escorsim no qual são narradas peripécias por ele presenciadas no trajeto entre São Paulo e Campina Grande (http://homemeterno.com/2017/04/um-ingles-na-paraiba/). Lembrava-me mais especificamente dos aplausos dos nordestinos (aos quais adicionam-se todos os votos de agradecimento ao Criador). Não sugiro com isso que bater palmas seja algo ruim. Só parece-me que tal pode soar como um comportamento tipicamente brasileiro, reflexo de um povo despojado. Mas como testemunha viva digo que aplaudir a aterrissagem de uma aeronave não tem nada de exclusivamente brasileiro. Assim como não são exclusivamente nossos a comida ligeira, a impaciência, nem o “me engana que eu gosto”.

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