Sobre a fé na ciência: lições da Guerra Biológica

Comecemos de forma clara: i) há personagens da juventude contemporânea, vistos com freqüência por este que escreve, que motivam esta ii) resenha de um ensaio de Hermínio Martins. Deste último, basta sinalizar ao leitor desavisado que trata-se de um dos grandes pensadores sociologia da tecnologia, e o ensaio ao qual faço referência aqui aparece no volume Experimentum Humanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana. Sobre a juventude, por mais estonteante que possa parecer para alguém minimamente afastado das redes sociais, explico que trata-se do seguinte personagem: aquele sujeito com tempo de sobra para ridicularizar da forma mais esdrúxula as narrativas religiosas, descartando-as com uma pompa que pode convencer os mais fracos de que estão diante de um Nietzsche do XXI. Todavia, o mesmo sujeito não tem a mínima vergonha de declamar seu amor pela ciência contemporânea, o que pode ser confirmado observando a imensa quantidade de matérias escritas por jornalistas (nunca artigos dos próprios cientistas) que esses tipos compartilham no maior estilo “quanto maior o disparate, mais ciência é”. A última notícia que li dizia que nosso universo é um holograma e que isso finalmente foi – ênfase aqui – “provado pela matemática”. Sei que há inúmeras parvices – como dizem os portugueses – a serem apontadas nesse tipozinho. Mas a desculpa aqui é partir da incompetência lógica dessa tal juventude a qual me refiro para apresentar essa incongruência a partir de casos extremos porém elucidativos que Hermínio Martins analisa.

O ensaio Experimentos com Humanos, Guerra Biológica, e Biomedicina Tanatocrática, de Hermínio Martins é pesado – não só em sua forma, como é típico da escrita do sociólogo, mas também em seu conteúdo. No ensaio, é-nos apresentada uma parte da história da Ciência que beira o grotesco – e ressaltemos aqui que trata-se de Ciência a sério, com C maiúsculo, feita por gente da pesada, e repetida por outros gigantes da Ciência agraciados com prêmios e glórias. Pergunto-me, portanto, se os Nietzsches do XXI, que não pensam duas vezes antes de acusar o potencial violento, perverso, dominador (física e intelectualmente) das narrativas religiosas, teriam estômago para digerir o lado digno de um freak-show da suposta racionalidade científica.

A história que Herminio Martins nos conta passa-se na primeira metade do século XX de forma similar tanto na Alemanha quanto no Japão. Ambos os países eram palco de uma mistura de nacionalismo exacerbado com a fé no progresso através da tecnologia e da ciência. Se preferirem, os dois países sofriam de modernidade reacionária. Mas o ponto central da análise do sociólogo não é o desenvolvimento económico, o aumento na riqueza material, e nem os impactos dessa virada tecnológica nos países em questão. O facto é que a besta-fera do progresso via técnica, com toda a forca que adquiriu em solo alemão e japonês, foi decisiva para que o lado obscuro da ciência se tornasse corriqueiro, necessário, e impiedoso. A Guerra Biológica revela que a racionalidade cientifica cheira a enxofre.

A virada progressista na Alemanha e no Japão, sobretudo nos anos 30 e 40, incluiu formas peculiares de pensar e praticar a biomedicina, lembra Herminio Martins: com clareza e foco jamais vistos na história da humanidade, a comunidade científica do contexto aqui referido trabalhou sério para descobrir as formas mais eficazes de exterminar seres humanos em massa. Mais: os próprios métodos de “investigação”, que incluíam experimentos com seres humanos vivos em condições que deixariam qualquer defensor dos direitos das baleias do Ártico estupefato, eram vistos como puramente científicos e, portanto, necessários para o progresso.

Para Hermínio Martins, os factos não deixam dúvidas de que o pioneirismo da Guerra Biológica no Japão e Alemanha – que também foram os primeiros a implementar essa estratégia a nível mundial – deve muito ao elevadíssimo nível académico dos respectivos países, aos hospitais com infraestruturas impecáveis, e ao não menos relevante patamar atingido pela biomedicina da época. Conhecimento e infraestrutura, portanto, foram imprescindíveis para o avanço descivilizatório.

No Japão, o hematologista Shiro Ishii, distinto personagem no meio académico da altura, foi o responsável pelo ponta-pé inicial. A insistência de Shiro Ishii, que convenceu tanto os políticos quanto os militares da eficácia da Guerra Biológica, foi essencial para enfrentar a resistência dos seus superiores. O sinal verde do alto escalão político e militar significou para Shiro Ishii e membros da comunidade científica a absoluta dissolução de barreiras que previamente impediam uma série de experimentos com grupos sociais já antes identificados e acompanhados com ansiedade por cientistas, a saber, aqueles compostos por seres humanos com vulnerabilidade de quaisquer tipos – disfunções cognitivas, debilidades físicas em geral, grupos de certas etnias ou grupos sociais minoritários, para ficarmos em alguns poucos exemplos.

Na Alemanha, que antes do Nazismo já via nascer no seio da comunidade científica “sugestões” de “eugenia negativa nacional”, como bem expressa Hermínio Martins, os desdobramentos da Guerra Biológica foram semelhantes. Com muita insistência, o aval das autoridades militares e políticas representou a tal “janela de oportunidades” para intensos experimentos com humanos, muitas vezes sem consentimento do “paciente”, “sem tratamentos, sem quaisquer restrições ou inibições éticas, legais, ou religiosas, sem piedade (…).”

Ainda entre os alemães, ressalta-se, por exemplo, que cinco futuros Prémios Nobel estiveram directamente envolvidos com a implementação de estratégias de Guerra Biológica. A figura Leo Szilard, sobretudo através de Einsten, foi imprescindível para  convencer o então presidente dos EUA, Roosevelt, de que o desenvolvimento do programa bélico norte-americano, em especial a construção de armas atómicas era fundamental para combater a Alemanha Nazista – ainda que, como verificado posteriormente, o potencial do programa atómico nazi era risível na comparação com o desenvolvido pelos EUA. A iniciativa para a construção da “superbomba termonuclear” é atribuída ao físico Edward Teller, antigo participante do Projecto Manhattan que contou com o auxílio dos matemáticos J. von Neumann e S. Ulam. Na URSS, o biólogo Yury Ovchnnikov abordou autoridades do Partido sugerindo a retomada de um grande Projecto de Investigação e Desenvolvimento ligado à genética, área que fora barrada por motivos ideológico. Enfim, como sintetiza o sociólogo, esses e outros casos ressaltam a assustadora “oferta espontânea e até entusiástica e teimosa dos cientistas aos políticos e militares.”

Não trata-se, portanto, de um momento a ser esquecido, desvio escabroso de uma história assentada nos pilares da nobre racionalidade humana. Prova disso é que o “material de pesquisa” nesse caso foi utilizado como moeda de troca pelas autoridades no pós-guerra. Os relatórios, apontamentos, inclusive vídeos que mobilizaram as mentes mais brilhantes da ciência dos anos trinta naqueles países foram compartilhados e assimilados pelas não menos brilhantes cabeças da ciência contemporânea a nível internacional.

O ensaio, enfim, é um exemplo didático de como a crença na ciência, entendida como pedra de toque da racionalidade, só vem desacompanhada de monstruosidades para inteligentinhos de redes sociais. O repertório de exemplos que demandam uma posição não só cética da ciência enquanto forma de conhecimento, mas como referencial de verdade a ser invejado é gigantesco, apesar de certos tipos insistirem na supremacia e neutralidade daquele tipo de investigação que trabalha com “factos”, e não “crenças”. E para além de inúmeras teses e factos relevantes para a sociologia da tecnologia e áreas próximas, a análise de Hermínio Martins serve como um triste lembrete de que a crueldade não é sinônimo de uma fina camada de seletos militares e ditadores que promovem seus actos absolutamente desprovidos de qualquer resquício humanitário. Há muito que a narrativa do progresso (progresso de quê? para quem? e para onde?) a todo custo habita o coração de inúmeros projectos científicos e revela a face perversa da humanidade. Agora, nesta breve resenha, o mesmo texto serve para expor a confusão intelectual dos inteligentinhos de rede sociais que clamam por mudanças através do lema “menos religião, mais ciência.”

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