Sobre a fé na ciência: lições da Guerra Biológica

Comecemos de forma clara: i) há personagens da juventude contemporânea, vistos com freqüência por este que escreve, que motivam esta ii) resenha de um ensaio de Hermínio Martins. Deste último, basta sinalizar ao leitor desavisado que trata-se de um dos grandes pensadores sociologia da tecnologia, e o ensaio ao qual faço referência aqui aparece no volume Experimentum Humanum: Civilização Tecnológica e Condição Humana. Sobre a juventude, por mais estonteante que possa parecer para alguém minimamente afastado das redes sociais, explico que trata-se do seguinte personagem: aquele sujeito com tempo de sobra para ridicularizar da forma mais esdrúxula as narrativas religiosas, descartando-as com uma pompa que pode convencer os mais fracos de que estão diante de um Nietzsche do XXI. Todavia, o mesmo sujeito não tem a mínima vergonha de declamar seu amor pela ciência contemporânea, o que pode ser confirmado observando a imensa quantidade de matérias escritas por jornalistas (nunca artigos dos próprios cientistas) que esses tipos compartilham no maior estilo “quanto maior o disparate, mais ciência é”. A última notícia que li dizia que nosso universo é um holograma e que isso finalmente foi – ênfase aqui – “provado pela matemática”. Sei que há inúmeras parvices – como dizem os portugueses – a serem apontadas nesse tipozinho. Mas a desculpa aqui é partir da incompetência lógica dessa tal juventude a qual me refiro para apresentar essa incongruência a partir de casos extremos porém elucidativos que Hermínio Martins analisa.

O ensaio Experimentos com Humanos, Guerra Biológica, e Biomedicina Tanatocrática, de Hermínio Martins é pesado – não só em sua forma, como é típico da escrita do sociólogo, mas também em seu conteúdo. No ensaio, é-nos apresentada uma parte da história da Ciência que beira o grotesco – e ressaltemos aqui que trata-se de Ciência a sério, com C maiúsculo, feita por gente da pesada, e repetida por outros gigantes da Ciência agraciados com prêmios e glórias. Pergunto-me, portanto, se os Nietzsches do XXI, que não pensam duas vezes antes de acusar o potencial violento, perverso, dominador (física e intelectualmente) das narrativas religiosas, teriam estômago para digerir o lado digno de um freak-show da suposta racionalidade científica.

A história que Herminio Martins nos conta passa-se na primeira metade do século XX de forma similar tanto na Alemanha quanto no Japão. Ambos os países eram palco de uma mistura de nacionalismo exacerbado com a fé no progresso através da tecnologia e da ciência. Se preferirem, os dois países sofriam de modernidade reacionária. Mas o ponto central da análise do sociólogo não é o desenvolvimento económico, o aumento na riqueza material, e nem os impactos dessa virada tecnológica nos países em questão. O facto é que a besta-fera do progresso via técnica, com toda a forca que adquiriu em solo alemão e japonês, foi decisiva para que o lado obscuro da ciência se tornasse corriqueiro, necessário, e impiedoso. A Guerra Biológica revela que a racionalidade cientifica cheira a enxofre.

A virada progressista na Alemanha e no Japão, sobretudo nos anos 30 e 40, incluiu formas peculiares de pensar e praticar a biomedicina, lembra Herminio Martins: com clareza e foco jamais vistos na história da humanidade, a comunidade científica do contexto aqui referido trabalhou sério para descobrir as formas mais eficazes de exterminar seres humanos em massa. Mais: os próprios métodos de “investigação”, que incluíam experimentos com seres humanos vivos em condições que deixariam qualquer defensor dos direitos das baleias do Ártico estupefato, eram vistos como puramente científicos e, portanto, necessários para o progresso.

Para Hermínio Martins, os factos não deixam dúvidas de que o pioneirismo da Guerra Biológica no Japão e Alemanha – que também foram os primeiros a implementar essa estratégia a nível mundial – deve muito ao elevadíssimo nível académico dos respectivos países, aos hospitais com infraestruturas impecáveis, e ao não menos relevante patamar atingido pela biomedicina da época. Conhecimento e infraestrutura, portanto, foram imprescindíveis para o avanço descivilizatório.

No Japão, o hematologista Shiro Ishii, distinto personagem no meio académico da altura, foi o responsável pelo ponta-pé inicial. A insistência de Shiro Ishii, que convenceu tanto os políticos quanto os militares da eficácia da Guerra Biológica, foi essencial para enfrentar a resistência dos seus superiores. O sinal verde do alto escalão político e militar significou para Shiro Ishii e membros da comunidade científica a absoluta dissolução de barreiras que previamente impediam uma série de experimentos com grupos sociais já antes identificados e acompanhados com ansiedade por cientistas, a saber, aqueles compostos por seres humanos com vulnerabilidade de quaisquer tipos – disfunções cognitivas, debilidades físicas em geral, grupos de certas etnias ou grupos sociais minoritários, para ficarmos em alguns poucos exemplos.

Na Alemanha, que antes do Nazismo já via nascer no seio da comunidade científica “sugestões” de “eugenia negativa nacional”, como bem expressa Hermínio Martins, os desdobramentos da Guerra Biológica foram semelhantes. Com muita insistência, o aval das autoridades militares e políticas representou a tal “janela de oportunidades” para intensos experimentos com humanos, muitas vezes sem consentimento do “paciente”, “sem tratamentos, sem quaisquer restrições ou inibições éticas, legais, ou religiosas, sem piedade (…).”

Ainda entre os alemães, ressalta-se, por exemplo, que cinco futuros Prémios Nobel estiveram directamente envolvidos com a implementação de estratégias de Guerra Biológica. A figura Leo Szilard, sobretudo através de Einsten, foi imprescindível para  convencer o então presidente dos EUA, Roosevelt, de que o desenvolvimento do programa bélico norte-americano, em especial a construção de armas atómicas era fundamental para combater a Alemanha Nazista – ainda que, como verificado posteriormente, o potencial do programa atómico nazi era risível na comparação com o desenvolvido pelos EUA. A iniciativa para a construção da “superbomba termonuclear” é atribuída ao físico Edward Teller, antigo participante do Projecto Manhattan que contou com o auxílio dos matemáticos J. von Neumann e S. Ulam. Na URSS, o biólogo Yury Ovchnnikov abordou autoridades do Partido sugerindo a retomada de um grande Projecto de Investigação e Desenvolvimento ligado à genética, área que fora barrada por motivos ideológico. Enfim, como sintetiza o sociólogo, esses e outros casos ressaltam a assustadora “oferta espontânea e até entusiástica e teimosa dos cientistas aos políticos e militares.”

Não trata-se, portanto, de um momento a ser esquecido, desvio escabroso de uma história assentada nos pilares da nobre racionalidade humana. Prova disso é que o “material de pesquisa” nesse caso foi utilizado como moeda de troca pelas autoridades no pós-guerra. Os relatórios, apontamentos, inclusive vídeos que mobilizaram as mentes mais brilhantes da ciência dos anos trinta naqueles países foram compartilhados e assimilados pelas não menos brilhantes cabeças da ciência contemporânea a nível internacional.

O ensaio, enfim, é um exemplo didático de como a crença na ciência, entendida como pedra de toque da racionalidade, só vem desacompanhada de monstruosidades para inteligentinhos de redes sociais. O repertório de exemplos que demandam uma posição não só cética da ciência enquanto forma de conhecimento, mas como referencial de verdade a ser invejado é gigantesco, apesar de certos tipos insistirem na supremacia e neutralidade daquele tipo de investigação que trabalha com “factos”, e não “crenças”. E para além de inúmeras teses e factos relevantes para a sociologia da tecnologia e áreas próximas, a análise de Hermínio Martins serve como um triste lembrete de que a crueldade não é sinônimo de uma fina camada de seletos militares e ditadores que promovem seus actos absolutamente desprovidos de qualquer resquício humanitário. Há muito que a narrativa do progresso (progresso de quê? para quem? e para onde?) a todo custo habita o coração de inúmeros projectos científicos e revela a face perversa da humanidade. Agora, nesta breve resenha, o mesmo texto serve para expor a confusão intelectual dos inteligentinhos de rede sociais que clamam por mudanças através do lema “menos religião, mais ciência.”

Notas entre aeroportos

A situação era a seguinte: avião lotado; voo de aproximadamente três horas; verão; cerca de meio-dia em uma terça-feira. Com todos os passageiros dentro da lata de sardinha, ouve-se a voz do comandante: “a torre mandou avisar que o aeroporto está lotado e por isso temos que esperar mais quinze minutos”. Nota-se uma leve inquietação entre os passageiros. Avião decola e, em seguida, vêm as aeromoças para servir a gororoba. Desta vez era frango – ou algo muito parecido -, um pouco-quase-nada de arroz, pãozinho bisnaga de ante-ontem, e um bombom sem vergonha. Entre as bebidas, nada de especial também: suquinho de laranja e maçã, chá, café, água e qualquer coisa alcoólica que não me recordo de momento. Refeição feita, hora de ir ao banheiro. Melhor: hora oficial de todos os passageiros levantarem-se e para ir ao banheiro. A fila é longa, atrapalha os comissários de bordo, e pessoas tomam a frente uns dos outros desesperadamente. Novamente ouve-se o piloto dizer qualquer coisa ininteligível, mas relacionada aos procedimentos para pousar. Aeromoça sinaliza de forma enfática para uma mamãe jovem e bela na fila ao lado que ela deve desligar o celular, o tablet da filha, colocar os dispositivos em seus devidos lugares, e apertar os cintos. Obviamente, a mamãe jovem e bela faz aquele “me engana que eu gosto”, espera a aeromoça sentar-se e volta a ligar o celular e também o tablet da filha. Ao pousar da aeronave, ouve-se aplausos e gargalhadas vindas do fundo do avião seguidas por um novo aviso do piloto: “pedimos que aguardem sentados, pois houve uma alteração de última hora no local de estacionamento da aeronave.” A paciência  enquanto espera-se para esticar as pernas é curta-quase-inexistente e, por isso, mesmo tendo escolhido uma das primeiras poltronas, sou um dos últimos a sair. Ah, sim, já ia me esquecendo: esse foi um voo dentro da Alemanha.

Enquanto todos esses factores me saltavam aos olhos com a mesma clareza que os mesmos impunham-se fisicamente, lembrava-me constantemente do divertido texto de Francisco Escorsim no qual são narradas peripécias por ele presenciadas no trajeto entre São Paulo e Campina Grande (http://homemeterno.com/2017/04/um-ingles-na-paraiba/). Lembrava-me mais especificamente dos aplausos dos nordestinos (aos quais adicionam-se todos os votos de agradecimento ao Criador). Não sugiro com isso que bater palmas seja algo ruim. Só parece-me que tal pode soar como um comportamento tipicamente brasileiro, reflexo de um povo despojado. Mas como testemunha viva digo que aplaudir a aterrissagem de uma aeronave não tem nada de exclusivamente brasileiro. Assim como não são exclusivamente nossos a comida ligeira, a impaciência, nem o “me engana que eu gosto”.

A linguagem dos aliens em A Chegada

Não fosse essa estranha habilidade de criar memórias do futuro, talvez não fosse mesmo possível qualquer tentativa de aproximação entre o filme The Arrival e as filosofias de Leibniz e Peirce. Claramente há no filme (traduzido no Brasil por A Chegada) inúmeras referências a temas filosóficos, questões existenciais, e diálogos com clássicos da ficção científica que enfrentaram cinematograficamente os mesmos temas. Isso foi demarcado veementemente pelos críticos de cinema. Mas, aquela estranha habilidade…

O roteiro de Eric Heisserer foi dirigido por Denis Villeneuve, e o resultado chegou aos cinemas em 2016. Objetos desconhecidos e de formas e tamanhos descomunais pousam em diferentes regiões da Terra mobilizando, com sua chegada, políticos, militares e todo o tipo de indivíduo capaz de fazer sentido daquela situação. No complexo desenrolar, o filme abrange as diferentes reações despertadas por um tal acontecimento. Como é de se esperar, forças armadas preparam-se para um ataque. Líderes sentem o peso da responsabilidade por suas respectivas nações. Cientistas querem garantia de que aquilo tudo não irá explodir – ou, eventualmente, certificar-se de que podem tudo aquilo explodir. Mas o protagonismo é dado à tentativa de comunicação entre humanos e os aliens que, para nosso deleite, é apresentada magistralmente.

A lingüista Louise Banks (Amy Adams) é convocada para compor o grupo de cientistas norte-americanos – sinal de que os extraterrestres se comunicam. E, de fato, as criaturas parecem expressar-se de forma peculiar e tão rica que, para além das conseqüências do filme, o tema enseja mesmo um interessante debate sobre linguística, comunicação, semiótica e teorias afins. Explico: o tipo de comunicação alienígena encenada no filme leva às últimas conseqüências um aspecto por vezes ignorado da comunicação humana. Esse aspecto é a dia-gramática, ou a linguagem dos diagramas.

Parte do filme é dedicada ao processo de aprendizagem das duas línguas – o inglês e os signos dos aliens. Banks, com o auxílio de outros soldados e cientistas, emprega sons, escrita, desenhos e gestos. Os aliens, retratados como tentáculos gigantes, como que desenham intrincados símbolos na superfície que constantemente os separa dos humanos – aliens pintores. Entre as repetidas tentativas de afinação entre os dois interlocutores, aumentam a tensão e impaciência dos envolvidos diretamente no contato. O progresso de Banks tentando desvendar os símbolos alienígenas é vagaroso.

Lá pelas tantas, com Banks cada vez mais segura de que os aliens não só estão compreendendo tudo, mas também se esforçam para ensiná-la linguagem diagramática, o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), que acompanha o processo desde o início, interroga Banks sobre se ela já é capaz de sonhar no idioma dos aliens. Nisso reside uma mensagem central do filme e que nada tem de ficção – pois, o que significa isso ‘pensar em outro idioma’?

Ora, em The Arrival, a linguagem dos aliens é diagramática. O complexo de traços que os tentáculos desenham na superfície transparente cada vez que tentam se comunicar inclui, simultaneamente e em um espaço de duas dimensões, um amplo conjunto de relações temporais. Estas aparecem sintetizadas, como que congeladas em cada símbolo diagramático da linguagem alienígena. O que Banks descobre como sendo a dádiva dos aliens para a raça humana é exatamente sua linguagem: um conjunto de representações diagramáticas que sintetizam e permitem pensar uma cadeia de eventos temporais, desde o mais primevo ao futuro mais distante. Os símbolos da linguagem alienígena contêm, em representações estáticas interpretadas pelo pensamento, todo o passado e todo o futuro. Aprender a pensar com esses diagramas, como o faz a lingüista Banks, é ascender ao Todo.

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O curioso é que essa linguagem diagramática, em certa medida, não é-nos estranha. Matemática e lógica são, grosso modo, representações ou invenções diagramáticas. Mapas, esquemas, modelos, são, em grande parte, signos diagramáticos. Mais: ainda que não possam ser reduzidas a diagramas, em parte também são diagramáticas as imagens mentais que lançamos mão ao considerar um cenário possível – o caminho a seguir; a próxima frase; uma ordenação qualquer; uma trajetória.

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Para Leibniz, é porque somos capazes de um ‘pensamento cego’, ou seja, inventar signos para pensar lá onde não conseguimos abarcar com nossos sentidos (o muito longe, muito grande, etc.), é por isso que participamos da mente divina. Somente Deus tem à disposição o diagrama do Todo, contendo o passado e o futuro. Em nossa frivolidade, avançamos em domínios de complexidade tremenda – como no caso da matemática – justamente porque dispomos da habilidade de inventar e operar símbolos que exigem não mais que caneta e papel.

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Interessante, também, é notar como esse pensamento através de diagramas está intimamente ligado a nossa própria conduta no mundo. Para além do trabalho intelectualizado de um astrônomo ou de um geômetra que tem nos diagramas a representação daquilo que não pode ser visto diretamente, Charles Sanders Peirce insiste em como a construção de diagramas nos permite antecipar e ensaiar condutas futuras. Através desse ensaio ou antecipação, criamos memórias, registros de uma situação que, por ora, está contida num simples diagrama, mas que, no futuro, poderá ser a conjuntura real dos fatos. E quando esse momento chegar, saberemos como agir.

Beethoven, proprietário de um cérebro

Haydn, o submisso. Mozart, o descontente. Beethoven, o revolucionário.

O responsável pela descrição (-ish) acima é nada menos que Richard Wagner. O talento do dito cujo para a escrita já me era conhecido, não só pelos seus Gesamtkunstwerken, mas também pelo seu estudo sobre arte e religião. O ensaio produzido por Wagner sobre Beethoven, contudo, me passou ao largo por muitos anos. Agora que o li, sinto-me na responsabilidade de garimpar um ou dois pontos que muito me interessaram.

O ensaio tem cerca de 100 páginas e, grosso modo, está dividido em 3 partes: muitas linhas sobre a concepção schopenhauriana de música; o gênio de Beethoven; e a decadência cultural da Alemanha do século XIX. É quase um estudo de caso. Wagner estabelece os conceitos fundamentais, aplica-os na análise da obra de Beethoven, e tira disso algumas conclusões que iluminam as dificuldades enfrentadas pela cultura da Alemanha de então.

Filosofia da Música de Schopenhauer

A parte inicial, sobre Schopenhauer, é uma aula de filosofia da música. Uma aula introdutória, é verdade, mas cerca os pontos essenciais do tema. A música, diz o filósofo, revela a Vontade. Ela apresenta sem intermediários a Verdade ao espírito do ouvinte que a contempla e, só então, pode-se experienciar a unidade das coisas (em oposição ao mundo fragmentado da Representação). As formas, como no caso das artes visuais, podem, eventualmente, elevar o espírito a tal estado – o que ocorre através da introspecção, quando o espírito escorre pelas formas e pode contemplar sua unidade. Aqui, Wagner aponta o dedo para a onda formalista da crítica musical, em especial para a filosofia da música de Hanslick. A música não precisa das formas para atrair o espírito do ouvinte até a Ideia – esta é apresentada (não representada) àquele.

Os precursores de Beethoven e a decadência da música alemã

Para Wagner, com exceção do surdo Beethoven, todos os outros compositores sucumbiram aos floreios, aos maneirismos da época, aos padrões de fácil acesso para o grande público. Nem Bach filho (Emmanuel), nem Bach pai escapam da crítica wagnerina, ainda que este último seja apontado no livro como o mestre supremo de Beethoven. Mais interessante, porém, é a relação que Wagner traça entre os membros da Primeira Escola de Viena. Haydn é a figura do compositor submisso: aceita de bom grado (ou ao menos finge aceitar) sua posição na corte como um mero empregado. Suas melodias fáceis, como na música italiana, refletem sua submissão e obediência ao grande público. Não à toa, Haydn e Beethoven nutriam uma relação tão áspera. Mas, antes de Beethoven, há a transição: Mozart. Esse morreu cedo demais para alcançar a revolução do seu sucessor na Escola de Viena, diz Wagner. Não conseguiu atingir o nível de radicalidade beethoveniana. Mas seu desgosto e revolta pela vida da corte eram óbvios. Seu nível de obediência pelos seus “superiores” era o mínimo necessário para que não passasse fome. Um ambiente cultural onde não precisasse mais depender da realeza, eis o que Mozart almejava (vide o estudo “Mozart – a sociologia de um gênio”). E eis o que Beethoven viveu. Essa mudança social, com a ascensão de uma burguesia interessada em música, foi central para que Beethoven retirasse a música alemã do estado de decadência no qual se encontrava.

O gênio de Beethoven

E aí mora a grandeza de Beethoven: sua música, sem precisar inventar uma gramática nova, consegue ser a aia da Vontade. Sua melodia não é mais um divertimento de fim de semana, como acontecia nas óperas italianas. Ao elevar sua música, sobretudo através da melodia, para tal patamar, Beethoven eleva junto o espírito alemão, que pode agora emergir das águas turvas. A melodia de Beethoven não se move mais de acordo com os gestos dos bailarinos, ou seguindo os vícios dos cantores. Muito menos sucumbe ao paladar dos príncipes e princesas. Detalhe interessantíssimo: isso tudo não impediu Beethoven de buscar inspiração no meio popular (o popular mesmo!), vide o vasto uso que o gênio fez de melodias húngaras, francesas, escocesas, russas, e do mundo afora.

O que há de comum entre Beethoven e Shakespeare

Além da tríade submissão-descontentamento-revolução, Wagner estabelece algumas conexões entre o gênio de Beethoven e o de Shakespeare, também à luz a filosofia de Schopenhauer. Em um livro de Arthur Nestrovski, chamado Ironias da Modernidade, as conexões entre os mesmos dois figurões aparecem em estado potencial, separadas por algumas páginas. De qualquer forma, está lá que Shakespeare inventou o homem moderno. Não há nada pós Shakespeare que não esteja nele contido. O mesmo se dá com a música de Beethoven. O homem moderno aprendeu a ouvir música a partir do gênio alemão.

Para Wagner, o bardo foi capaz de apresentar a própria vida no palco. E note que isso não é qualquer coisa. Com exceção da música, as outras artes podem, somente com muito esforço, elevar o espírito do homem à contemplação do uno – isso tudo, claro, mediado pelas formas. A obra de Shakespeare, porém, é uma clarividência, é o sono mais profundo (a Vontade) sendo acessado imediatamente sem o intermédio de um segundo sonho (os fenômenos, ou as formas). O espectador fica como que sonâmbulo a ver espíritos, assistindo a vida acontecer ante seus olhos arregalados.

Na música, Beethoven foi o gênio responsável por semelhante façanha. Com ele, a arte dos sons foi liberta do casulo das representações, e pôde ascender ao domínio da Vontade. Os ouvintes, com Beethoven, são arrebatados diretamente pela Vida, e não mais por frivolidades formais. Às favas com impressões rasas e agradáveis: Beethoven mostra que a salvação da cultura alemã está no domínio do denso e do sublime.

Duas recomendações para o dia dos namorados

Mulher que não dá voa – já dizia o ditado popular. E mulher que não trai, também voa? Desculpem-me, leitoras, mas esse é o humor de quem precisa trabalhar em pleno domingo. E, claro, humor de quem passa o dia dos namorados solteiro. Mas sobretudo de quem trabalha na manhã fria de domingo. Permita-me recomeçar.

Prezados e prezadas, apresento-vos hoje duas maravilhas para serem apreciadas no dia dos namorados (ou em qualquer outro dia, desde que seu parceiro (a) esteja presente de corpo e alma). Um filme e uma ópera, que devem ser vistos na ordem contrária: primeiro esta, depois aquele. Minha única preocupação aqui é que os interessados já tenham visto o filme, que é de 2004. Mas que sujeito desatualizado sou eu. No mais, duvido que haja conteúdo melhor para ser apreciado em casal. Beldades hollywoodianas, ótimas intrigas, papo cabeça, sem ser maçante, e toda a introspecção que só a música pode trazer (diz Schopenhauer).

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O cast do filme Closer é sensacional, ao menos em termos de beleza. Natalie Portman, Julia Roberts, Jude Law e Clive Owen. A trama é baseada no libreto de uma ópera, sobre a qual falarei em breve. Não me recordo dos nomes dos personagens, e por isso empregarei os nomes dos intérpretes. Ano 1: Jude Law conhece Natalie Portman,  recém chegada em Londres. Ele é um escritor fracassado, ela trabalha na versão européia e limpinha da profissão mais antiga do mundo – é stripper. Ano 2: Law escreve um best-seller sobre a vida de Portman, que agora é sua parceira. Durante o ensaio fotográfico para lançamento do material, Law descaradamente flerta com Roberts, a fotógrafa, sugerindo um affair entre eles. Portman saca tudo; não fala nada. Anos 3: Julia Roberts conhece Clieve Owen, um dermatologista, e logo começam um relacionamento. Meses depois, em uma exposição de Julia Roberts, os dois casais se encontram e, finalmente, Law faz a cabeça de Roberts e os dois começam a ter um caso que dura um ano. Os pecadores confessam o affair para seus respectivos parceiros, Portman e Owen, e a partir daí a confusão é geral. Owen e Portman se aproximam, Law e Roberts finalmente entram em um “relacionamento sério”, e não conto mais anda para não estragar o filme. É suficiente dizer que ocorrem ainda muitas idas, vindas e descobertas, sempre com os dois pastelões achando que estão no controle da situação.

Cosi fan tutte

Chegamos, enfim, à Ópera. Così fan tutte, libreto de Lorenzo da Ponte e música de Mozart filho (a mesma parceria foi repetida em Don Giovanni), estreou em Viena, 1790. Como na versão moderna de Closer, aqui também observamos dois bonachões, duas beldades, e o imbróglio dessas relações. Mas as discórdias, neste caso, são semeadas por um terceiro (ou quinto?), que atende pela alcunha de O Filósofo (que maldade…). O filósofo é cético, e como tal, não acredita na fidelidade das mulheres. Observando dois soldados certos do amor de suas pretendidas, o Filósofo não se aguenta e propõe o seguinte desafio: os dois soldados deverão fingir uma viagem para a guerra e, após anunciarem para suas amadas a partida, voltarão ao vilarejo fantasiados de ricos comerciantes. E mais: para colocar uma pedra no assunto, os “comerciantes” deverão pedir as beldades em casamento. O Filósofo adverte: em pouco tempo, as duas esquecerão o voto de fidelidade aos soldados e se entregarão aos novos amantes. Para deixar a coisa ainda mais interessante, ao voltarem como homens de negócios, os soldados passam a cortejar um a pretendente do outro. Dito e feito. As damas mudam de ideia (novidade!). Ok, sejamos justos: a governanta da casa dá uma mãozinha ao Filósofo, lembrando as damas diariamente das benesses de sucumbir aos comerciantes galanteadores.

A mulher e, por tabela, a relação entre homens e mulheres, foi descrita pelas mais hilariantes analogias na história da cultura ocidental, a começar pela ideia de Mãe Natureza. As forças incontroláveis e avassaladoras da Mãe Terra, que provê o necessário à subsistência, mas tem um braço de ferro para extinguir espécies inteiras. A inconstância da Mãe Natureza – os ciclos. Enquanto escrevo este texto, aliás, o vizinho de cima, que é personal trainer, resolveu montar uma banda e agora ensaia Mulher de Fases, daquela banda, Raimundos (viu que o cara se converteu? That’s so 2000’s, babe, she said).

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(Vênus de Willendorf)

Qualquer contato entre a figura feminina e o homem, apolíneo, é marcado pelo conflito. Brincar com a Mãe Natureza é brincar com fogo! Essa analogia entra na dimensão familiar com a figura materna descrita por Freud.  A relação entre homem e mulher é sempre tensa, visto que o homem, conceitualizador, objetificador, possui algo que precisa ser mergulhado na auto-suficiência instável e dionisíaca da mulher. É arriscado! Para mediar isso, o homem erotiza a mulher, suas belas formas, etc. (devo esses insights à Camille Paglia em Sexual Personas). Temendo o canto hipnotizante das sereias, Ulisses colocou algodão nos ouvidos dos seus marinheiros, pediu para ser amarrado na haste do navio, e alertou: quando eu começar a me debater, remem mais forte, pois estamos nos aproximando da ilha onde as sereias habitam!

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(Busto Nefertite)

Espero que os casais possam tirar proveito dessas informações. E sigamos o conselho do Filósofo da Ópera de Mozart: perdoem suas amadas, pois così fan tutte, assim são todas as mulheres. Um ótimo dia dos namorados a todos!

Arte conservadora?

Um dos temas que apareceu de forma modesta no debate público recentemente (seguindo o agravamento da situação do PT no comando do país) é a função dos artistas na vida política do Brasil. Enquanto atores, compositores, escritores e outros artistas abraçavam tal ou qual lado da história, uma premissa endossada pelos membros da esquerda me chamou a atenção. É verdade que ela não permaneceu no centro do argumento esquerdista, mas ainda assim me suscitou alguns pensamentos que apresentarei aqui. A ideia era mais ou mesmo a seguinte: só há arte de esquerda; não pode haver arte conservadora, pois arte está eternamente entrelaçada com a quebra de paradigmas, com a quebra de tabus; por isso, uma arte conservadora traria consigo seu próprio túmulo.

Meus two cents sobre essa questão serão, na verdade, three cents. Primeiro gostaria de lembrar-vos que um dos papas da esquerda, Theodor Adorno,  já explicou muito bem explicado que julgar o viés político de uma obra de arte ou de um artista é muito mais complexo e ambíguo do que parece. Em seguida, apresentarei exemplos de compositores geniais e inventivos, e que podem sim, até certo ponto, ser identificados como conservadores. Para terminar a ladainha, acho fundamental lembrarmos, contudo, a importância de manter a arte, sempre que possível, acima de questões políticas. Encerrando essa distância, corremos o risco de aniquilarmos o pouco que nos resta de Alma. Sem mais delongas, que entre a primeira testemunha.

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Theodor Adorno, uma das figuras centrais da Escola de Frankfurt, corrente responsável por aplicar concepções do marxismo na análise cultural, argumenta extensamente no livro Introdução à Sociologia da Música sobre os equívocos de buscar ligações unívocas entre certas músicas e ideologias políticas. Julgar que porque certo compositor apoia este ou aquele governo ele apresenta as condições necessárias e suficientes para que certa ideologia seja traduzida em sua arte (assumindo, claro, que o tal compositor faz arte), é um equívoco tremendo. Aliás, tomando ao pé da letra o discurso de Adorno, entendo por que compositores de música popular (e de esquerda) no Brasil raramente fazem menção à sua filosofia/sociologia da música: Adorno despreza a música popular. Para o filósofo alemão, seguindo os desdobramentos do marxismo, qualquer manifestação de música popular dentro de uma sociedade capitalista nada mais é que propagação da ideologia vigente, já que não tem autonomia enquanto obra de arte. A música popular precisa buscar apoio em noções extra-musicais, como discursos políticos, por exemplo, deixando de lado aquilo que a arte tem de mais avesso ao capitalismo, sua autonomia, sua falta de “necessidade” ou de aplicação prática. A música popular brasileira (incluindo os “vanguardistas” ou as “canções de protesto”), na visão de Adorno, seria considerada, enfim, uma reles música de consumo cuja única função é propagar a ideologia (capitalista) dominante, por mais que almeje uma suposta emancipação em seus discursos. Na teoria de Adorno, aliás, pouquíssimos compositores (e todos eles “eruditos”, como diríamos) deram conta de dobrar o material musical de tal modo a não reproduzir uma ideologia, mas superá-la em emancipação através da música. Portanto, o ato mais radical e anticapitalista que os compositores de música popular no Brasil poderiam empreender é, paradoxalmente, se calarem (musicalmente, digo).

É nesse contexto que Adorno vislumbra a quase impossibilidade de identificar relações verdadeiras entre o que podemos encontrar em certo tipo de música ou repertório e posições ideológicas. Observar os comportamentos e preferências dos ouvintes ou mesmo dos compositores também não resolve o problema, diz Adorno. Moldados pela ideologia capitalista, os ouvintes sequer são capazes de identificar na música quaisquer elementos que desmintam, por assim dizer, a farsa capitalista. E os exemplos da história da música não deixam dúvidas de que compositores com posturas políticas diversas e vindos de classes sociais distintas conseguiram dialogar com práticas (poéticas) musicais similares. Em suma: nem a própria teoria marxista salva nossos “compositores (auto-intitulados) revolucionários”.

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Mas deixemos de lado a visão marxista do problema e vejamos alguns compositores de primeiro escalão e que podem sim, até certo ponto, ser identificados como conservadores. Digo “até certo ponto” porque não analisarei aqui de forma detalhada como as peças em si transmitem (ou podem transmitir) um pensamento conservador. Os exemplos serão gerais e a relação com o conservadorismo será mais intuitiva do que sistemática. Aos exemplos:

Música Sacra – antes de existirem boy bands de música gospel, compositores de mão cheia eram encarregados de escrever as missas, as celebrações e réquiens. Algumas das peças mais belas do repertório ocidental foram compostas por homens de fé, e em muitos casos sob tutela da própria Igreja. Sugestões: A Paixão Segundo São Mateus, de J.S. Bach; Spem in alium, de Thomas Tallis; qualquer uma das missas de Palestrina; L’ascension, de Olivier Messiaen (até um vanguardista!).

Música Clássica/Romântica – entre os século XVIII e início do século XX, a produção musical de cunho orquestral foi realizada através de um forte diálogo com a tradição. O período, que representa a consolidação, expansão, e os primeiros sinais de rompimento com a música tonal só foram possíveis porque os compositores estudavam de fato o que os mestres das gerações anteriores haviam escrito. Beethoven foi aluno de Haydn e também era curioso acerca de um tal de Mozart (há lendas de que houve um encontro entre ambos). Não à toa, os três configuram a chamada Primeira Escola de Viena. Como sugestão, recomendo a escuta dos quartetos de cordas desses mestres na seguinte ordem, se é que posso chamar isso de ordem: ouça primeiro Haydn, alguns dos primeiros quartetos e alguns dos últimos; então, faça a mesma coisa com os quartetos do Mozart (não esquecer do n.19!); por fim, ouça os primeiros quartetos de Beethoven e alguns exemplos dos late string quartets. O desenvolvimento dessa forma musical, por assim dizer, é nítido. E digo mais, é belíssimo de se ouvir. As alterações na forma são graduais, conscientes, com a certeza na ponta do lápis (ou da pena) do compositor (e tudo isso culmina em Brahms, Schumann, e, finalmente, na Segunda Escola de Viena). Não há movimentos espalhafatosos de gente querendo romper paradigmas para sair bem na capa da revista.

Música de Vanguarda – refiro-me aqui, antes que o leitor levante a sobrancelha em sinal de desconfiança, à sequência de compositores que emerge em especial após a segunda metade do século XX e continua até hoje. E, sim, eles são majoritariamente e abertamente de esquerda. Adivinha onde eles estão? Exato, na universidade, trabalhando como professores de análise, composição, percepção, etc. O que há, então, de conservador nessa música? A meu ver, há no mínimo um elemento em comum entre o conservadorismo e alguns (ao menos alguns…) dos compositores de vanguarda: o respeito à tradição. É certo que, do ponto de vista ideológico, eles defendem figuras que querem mais é queimar bibliotecas, acabar com padrões morais, apagar parte da história. Mas, enquanto compositores, esses camaradas possuem não só um vasto conhecimento da tradição (conhecem a história da música, sabem escrever contraponto, apreciam compositores barrocos, clássicos, românticos, e modernos, enfim…) como almejam dialogar com essa tradição (o que não significa necessariamente que eles atingem esse objetivo). Veja, por exemplo, a música de Flo Menezes ou Luciano Berio (até Adorno, que era compositor, estimava a relevância da tradição musical!)

Até o momento vimos que analisar peças musicais procurando elementos que entreguem seu viés político, seja ele qual for, é em si uma tarefa inglória, de modo que a tentativa dos artistas (músicos) brasileiros engajados com a ideologia esquerdista é um tiro no próprio pé, tomando como referência a Escola de Frankfurt. Vimos ainda que, malgrado a talvez impossibilidade de traduzir no material musical ideologias políticas, há compositores, dos mais variados e do alto escalão, que podem ser identificados de certa forma com o viés conservador – ao menos quando observamos o contexto em que suas obras foram produzidas (a relação de afeto com a Igreja e com a Fé; o convívio respeitoso com a tradição; etc.)

Resta apenas uma observação antes que o leitor feche este texto para visualizar as atualizações na sua rede social (se é que ainda não o fez). Nesse contexto conturbado que vivemos, com (sub)celebridades se passando por artistas, analistas políticos, formadores de opinião e afins, a batalha dos artistas de verdade, e falo agora de todas as artes, não só da música, deve ser impedir que a arte seja politizada – para qualquer um dos lados. Caso a direita impulsionasse uma produção artística nacional que respondesse diretamente aos anseios ideológicos dessa corrente, cairíamos naquilo que mais se critica na esquerda: o fim da vida privada, do pessoal, da natureza humana, da alma. Tudo isso seria diluído na vida estatal que, por sua vez, seria comandada pelos burocratas. Um dos méritos da direita é justamente querer preservar esse âmbito da liberdade individual, onde os cidadãos têm espaço para formarem sua visão de mundo sem terem de responder ao Partido.

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A feminista rechaçada pelas feministas Camille Paglia levanta essa bandeira há algum tempo (vida a entrevista Everything’s awesome but Camille Paglia is unhappy). Para a autora, limitar a arte à agenda dos movimentos sociais é pedir para surgir um novo Hitler ou Stalin. Aliás, sobre esse último, assistam o filme Child 44 e vejam a dissolução da vida privada como a ditadura última. Nada pode ser dito sem que o partido tome conhecimento e, claro, “there is no crime in paradise”, therefore, ou o artista segue a agenda do partido, ou…. Já ouviu falar do Shostakovich?

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(Cena do filme Child 44. Uma família conversa livremente durante o jantar)

Breve nota sobre a cultura do estupro. Ou: por que o nadador importa.

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Assim inicia Nelson Rodrigues uma de suas crônicas:

“Ontem, o meu fraterno colega entrevistou uma psicanalista sobre um dos problemas mais agudos do nosso tempo: — a juventude. E aí começa o equívoco. “Do nosso tempo” por quê? O jovem sempre foi problemático e, se não é problemático, estejamos certos: — trata-se de um débil mental que deve ser amarrado num pé de mesa. Vamos dar graças a Deus que a nossa juventude tenha um drama, uma angústia, uma tensão dionisíaca ou demoníaca, sei lá.

Mas a psicanalista começa a falar e logo percebemos o seu raro brilho e o seu casto saber. Por que o jovem está inquieto, tenso, vibrante, explosivo, perplexo e ameaçador? A culpa é da sociedade e da família. Quanto ao próprio jovem, a entrevistada não faz uma tênue insinuação ou uma vaga referência. O que importa é apenas a situação social. Como reles coadjuvante, a situação familiar.

E eu então vi subitamente tudo. Imaginei que, diante de uma prova de natação, a psicanalista havia de concluir: — “Quem nada é a piscina e não o nadador.” Minha vontade foi bater o telefone para a TV Globo e dizer: — “Minha senhora, não se esqueça do nadador.” Se vocês admitirem a comparação, eu diria que há, sim, um nadador no problema da juventude. Sim, o que está por trás da família, da sociedade, das gerações é um velho conhecido nosso, ou seja: — o homem.”

À guisa de explicação: não podemos esquecer que o personagem principal (leia-se “culpado”) de um estupro é o nadador, digo, o estuprador.