A Pátria de Chuteiras Revisitada. Ou: lições do 7×1

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“Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. Precisaria ser camelô no largo da Carioca. Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.”

Amigos (não poderia haver início melhor para um blog do que a saudação de Nelson Rodrigues em suas crônicas: Amigos!), confesso que a primeira coisa que me chamou a atenção nos ensaios de Nelson Rodrigues reunidos no livro A Pátria de Chuteiras foi o uso da palavra escrete. Mas para além do meu vocabulário limitado, as análises sobre o futebol, mais especificamente sobre nossa seleção, que aparecem no tal livro causaram uma verdadeira reviravolta no espírito saudador de Messi (e até mesmo de Di(mais) Maria! devo confessar) e crítico de Neymar deste que voz escreve.

Pois eis que a cada nova página do livro, minha intenção de escrever um breve ensaio para gritar aos quatro cantos que Nelson errou quando disse o que disse sobre nosso futebol se transformava em autocrítica, ficando cada vez mais claro que errado estava eu.

Uma ressalva fundamental: quando Nelson vibra com a suavidade e honestidade (sim, honestidade!) dos jogadores brasileiros frente aos adversários europeus, confesso que me arrepiam os pelos da nuca. E nesse caso, minha perspectiva revisionista ganha força.

“o craque brasileiro é muito mais doce, mais educado, mais cavalheiresco do que o europeu. E argumentei com o nosso comportamento exemplar nos três últimos Campeonatos Mundiais. Nas três oportunidades, o brasileiro foi inexcedível na sua conduta disciplinar. Ninguém se lembra de um foul desleal dos nossos. Em 58, contra a França, fomos garfados da maneira mais deslavada. Tivemos que fazer três gols para que um valesse.”

Basta comparar o desempenho dos brasileiros jogando na Europa (vide Neymar e Messi, ambos no Barcelona) para questionarmos: Será mesmo, Nelson? Aliás, o fair play que acompanhamos nos campeonatos e copas da Alemanha continuam fazendo qualquer brasileiro morrer de vergonha ao assistir a Copa Libertadores da América. Pois é, Nelson – melhor aceitarmos que essa crônica ficou limitada àquele ano.

Mas eu ia dizendo que as páginas do livro me faziam mudar de ideia pouco a pouco. Explico. E explico filosoficamente: Hegel dizia que todos os grandes eventos da história sempre acontecem duas vezes; e Marx completou que na primeira vez eles aparecem como tragédia, e na segunda, como farsa. Ora, mas eis que a enxurrada de críticas avacalhando o escrete brasileiro pós 7×1 não é novidade. E pior: aconteceu quando o escrete galgava seu caminho de glória, com ninguém menos que Pelé e Garrincha!

E é nesse ponto que aparece a perspicácia de um Nelson Rodrigues. O gajo já sabia que não importa o quanto os europeus estudem, analisem e tentem desmontar nosso futebol. At the end of the day, a individualidade de um Neymar (não esqueçamos de Douglas Costa, Gabi Gol, Gabriel Jesus…) ainda é capaz de trazer o caneco para casa. Concordo que depois do supracitado resultado vergonhoso da semifinal da Copa de 2015 é difícil não dar o braço a torcer para a superioridade do futebol coletivista, de estratégias dignas de um engenheiro – me refiro, claro ao futebol Alemão. Mas eu avisei; aliás, Nelson avisou: isso não é novidade! E esses críticos estão redondamente equivocados:

“Mas vejamos as suas verdades. Diz ele que a Copa do Mundo de 66 veio trazer o “futebol brasileiro à realidade”. Ao ouvir falar em “realidade”, poderíamos perguntar: — “Qual delas?” E, então, Chirol explica a “sua” realidade. Diz textualmente: — “O personalismo não é mais concebido dentro de uma equipe, e sim o coletivismo.” Percebe-se que, ao falar assim, o simpático treinador vibra de certeza inapelável e eterna.”

“A meu ver, a teoria do Chirol apresenta dois defeitos: — primeiro, é inexequível; segundo, é indesejável. No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais — será a morte do próprio homem. Amigos, não sei se bem entendi. Mas para fazer o seu futebol impessoal e coletivista, o caro Chirol terá de preliminarmente mudar o homem. Para isso, terá que pedir à diretoria do clube uns vinte séculos ou mais. Note-se, porém: — antes dele, Cristo tentou a mesma coisa e fracassou. Os pulhas estão aí, impunes e bem-sucedidos.”

E se não é essa a crítica proferida pela pátria amada pós 7×1. E para finalizar esse texto introdutório, mais algumas pérolas observadas por Nelson e que seguem na boca dos entendidos de futebol do Brasil:

“Hoje, vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda a parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!” E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?”

“Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: — “Quem ganha amanhã?” Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: — “Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter.””

Em poucos meses nosso escrete entra em campo para, quem sabe, lembrar o brasileiro de que, mesmo aos trancos e barrancos, somos nós os penta campeões. Seja a tese de Nelson sobre o futebol comprovada novamente ou não, os ensaios reunidos em A Pátria de Chuteiras seguem interessantes, se não pelo futebol, ao menos pelo de Brasil retratado por Nelson.

 

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