Notas de uma viagem para São Petersburgo

Em uma nota recente, Olavo de Carvalho dizia que o nível de uma civilização deve ser medido “pelas casinhas que seu povo habita”, e não “pelos seus grandes monumentos”. Está aí uma lição que passou ao largo dos russos. Andando pelas ruas de São Petersburgo, tem-se a impressão de que tudo ali foi construído para homens gigantes, para os além-homens outrora profetizados por Nietzsche na narrativa de Zaratustra. O guia de viagens enfatiza que ali pode-se encontrar o maior disso, o maior daquilo e também daquele outro. A biblioteca nacional – com a placa “Lénin foi um dos nossos leitores” – contém cerca de 33 milhões de títulos e ocupa um baita quarteirão inteiro. O museu Hermitage, situado no palácio que pertenceu à Catarina, a Grande, tem mais de 400 quartos com dezenas e dezenas de quadros e esculturas amontoados do chão ao teto – e também está entre os maiores do mundo. As igrejas e suas peculiares torres, que marcam a distinção entre os templos russos e os demais, tocam os céus. Os ónibus dos turistas, estacionados na frente dos palácios, parecem carrinhos de brinquedo. Não obstante, há uma assimetria abismal entre a grandiosidade dos monumentos e o cotidiano russo.

Na Estónia, país que foi ocupado pela União Soviética e ainda hoje teme possíveis avanços militares por parte da Rússia, há uma anedota que sintetiza a pequenez da civilização russa quando julgada não pelos grandes monumentos, mas pelo cotidiano dos vilarejos. Conta-se que, em certa feita, uma pequena vila no interior da Rússia recebeu uma notificação de visita de um importante general. O local, porém, encontrava-se num estado visivelmente deplorável: há muito que os jardins não eram tratados, as casas sem pintura alguma, a sujeira tomava conta das calçadas, etc. A “solução” para o problema – ou melhor, a solução russa – foi jogar tinta verde na grama, pintar somente a parte frontal das casas, e jogar o resto da tinta sobre a sujeira nas calçadas. Assim, pensavam os russos, quando o general passar por aquela estrada, a cidade lhe parecerá radiante. O que tem lugar na Rússia até hoje e que é captado por essa anedota é a importância de certa faixada de grandiosidade que, no fundo, encobre uma grossa camada de sujeira.

Viajando de ónibus da Estónia para São Petersburgo, nota-se com clareza que os serviços oferecidos na União Europeia têm a ver com as necessidades concretas de pessoas reais, enquanto na Rússia, a preocupação é exclusivamente com a manutenção de grandes monumentos que exibem a suposta relevância desse país. Em solo estoniano, o controlo de passaporte  -tanto para entrar quanto para sair – não leva mais do que alguns minutos, e é conduzido por indivíduos capazes de se comunicar em diferentes idiomas. As informações são claras e objetivas. O espaço é organizado de modo a optimizar o serviço. Ao cruzar para o lado russo, o tempo de espera chega a passar de uma hora (em geral, as empresas de viagem contam com duas horas de espera no controlo de passaporte). Não há qualquer sinal de informação em inglês ou qualquer idioma que não seja o russo. Ainda na fila, é possível sentir o mal cheiro da casa de banho, que fica do outro lado do prédio. O contacto com as autoridades da fronteira não é menos áspero que o restante da atmosfera local.

Atravessando para o lado de lá da fronteira, os serviços de hotel e restaurante – para ficarmos nos casos mais frequentes – confirmam a experiência passada: inglês rudimentar que não passa de duas ou três palavras (quando muito); comentários e requerimentos absurdos; inexistência de qualquer trato na relação com os clientes; sinais, advertência e restrições surreais. Para entrar em locais turísticos como museus e palácios, é necessário, via de regra, primeiro entrar para somente em seguida, do lado de dentro, descobrir informações básicas como… por onde entrar e onde comprar os ingressos. Há inúmeros estabelecimentos que prometem, através da faixada, o gosto de Nova Iorque, Paris, ou Roma. Pura enganação: o cardápio é basicamente o mesmo, com receitas genéricas que sequer podem ser ditas russas.

A impressão que fica, portanto, é de que na Rússia, só é relevante aquilo que brilha aos olhos mesmo quando estamos a milhas de distância. O gesto de delicadeza, a conversa no café da esquina, o respeito para com as pessoas nas ruas, enfim, a diplomacia cotidiana é, aparentemente, relegada a segundo plano – o que é uma pena.

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Arte conservadora?

Um dos temas que apareceu de forma modesta no debate público recentemente (seguindo o agravamento da situação do PT no comando do país) é a função dos artistas na vida política do Brasil. Enquanto atores, compositores, escritores e outros artistas abraçavam tal ou qual lado da história, uma premissa endossada pelos membros da esquerda me chamou a atenção. É verdade que ela não permaneceu no centro do argumento esquerdista, mas ainda assim me suscitou alguns pensamentos que apresentarei aqui. A ideia era mais ou mesmo a seguinte: só há arte de esquerda; não pode haver arte conservadora, pois arte está eternamente entrelaçada com a quebra de paradigmas, com a quebra de tabus; por isso, uma arte conservadora traria consigo seu próprio túmulo.

Meus two cents sobre essa questão serão, na verdade, three cents. Primeiro gostaria de lembrar-vos que um dos papas da esquerda, Theodor Adorno,  já explicou muito bem explicado que julgar o viés político de uma obra de arte ou de um artista é muito mais complexo e ambíguo do que parece. Em seguida, apresentarei exemplos de compositores geniais e inventivos, e que podem sim, até certo ponto, ser identificados como conservadores. Para terminar a ladainha, acho fundamental lembrarmos, contudo, a importância de manter a arte, sempre que possível, acima de questões políticas. Encerrando essa distância, corremos o risco de aniquilarmos o pouco que nos resta de Alma. Sem mais delongas, que entre a primeira testemunha.

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Theodor Adorno, uma das figuras centrais da Escola de Frankfurt, corrente responsável por aplicar concepções do marxismo na análise cultural, argumenta extensamente no livro Introdução à Sociologia da Música sobre os equívocos de buscar ligações unívocas entre certas músicas e ideologias políticas. Julgar que porque certo compositor apoia este ou aquele governo ele apresenta as condições necessárias e suficientes para que certa ideologia seja traduzida em sua arte (assumindo, claro, que o tal compositor faz arte), é um equívoco tremendo. Aliás, tomando ao pé da letra o discurso de Adorno, entendo por que compositores de música popular (e de esquerda) no Brasil raramente fazem menção à sua filosofia/sociologia da música: Adorno despreza a música popular. Para o filósofo alemão, seguindo os desdobramentos do marxismo, qualquer manifestação de música popular dentro de uma sociedade capitalista nada mais é que propagação da ideologia vigente, já que não tem autonomia enquanto obra de arte. A música popular precisa buscar apoio em noções extra-musicais, como discursos políticos, por exemplo, deixando de lado aquilo que a arte tem de mais avesso ao capitalismo, sua autonomia, sua falta de “necessidade” ou de aplicação prática. A música popular brasileira (incluindo os “vanguardistas” ou as “canções de protesto”), na visão de Adorno, seria considerada, enfim, uma reles música de consumo cuja única função é propagar a ideologia (capitalista) dominante, por mais que almeje uma suposta emancipação em seus discursos. Na teoria de Adorno, aliás, pouquíssimos compositores (e todos eles “eruditos”, como diríamos) deram conta de dobrar o material musical de tal modo a não reproduzir uma ideologia, mas superá-la em emancipação através da música. Portanto, o ato mais radical e anticapitalista que os compositores de música popular no Brasil poderiam empreender é, paradoxalmente, se calarem (musicalmente, digo).

É nesse contexto que Adorno vislumbra a quase impossibilidade de identificar relações verdadeiras entre o que podemos encontrar em certo tipo de música ou repertório e posições ideológicas. Observar os comportamentos e preferências dos ouvintes ou mesmo dos compositores também não resolve o problema, diz Adorno. Moldados pela ideologia capitalista, os ouvintes sequer são capazes de identificar na música quaisquer elementos que desmintam, por assim dizer, a farsa capitalista. E os exemplos da história da música não deixam dúvidas de que compositores com posturas políticas diversas e vindos de classes sociais distintas conseguiram dialogar com práticas (poéticas) musicais similares. Em suma: nem a própria teoria marxista salva nossos “compositores (auto-intitulados) revolucionários”.

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Mas deixemos de lado a visão marxista do problema e vejamos alguns compositores de primeiro escalão e que podem sim, até certo ponto, ser identificados como conservadores. Digo “até certo ponto” porque não analisarei aqui de forma detalhada como as peças em si transmitem (ou podem transmitir) um pensamento conservador. Os exemplos serão gerais e a relação com o conservadorismo será mais intuitiva do que sistemática. Aos exemplos:

Música Sacra – antes de existirem boy bands de música gospel, compositores de mão cheia eram encarregados de escrever as missas, as celebrações e réquiens. Algumas das peças mais belas do repertório ocidental foram compostas por homens de fé, e em muitos casos sob tutela da própria Igreja. Sugestões: A Paixão Segundo São Mateus, de J.S. Bach; Spem in alium, de Thomas Tallis; qualquer uma das missas de Palestrina; L’ascension, de Olivier Messiaen (até um vanguardista!).

Música Clássica/Romântica – entre os século XVIII e início do século XX, a produção musical de cunho orquestral foi realizada através de um forte diálogo com a tradição. O período, que representa a consolidação, expansão, e os primeiros sinais de rompimento com a música tonal só foram possíveis porque os compositores estudavam de fato o que os mestres das gerações anteriores haviam escrito. Beethoven foi aluno de Haydn e também era curioso acerca de um tal de Mozart (há lendas de que houve um encontro entre ambos). Não à toa, os três configuram a chamada Primeira Escola de Viena. Como sugestão, recomendo a escuta dos quartetos de cordas desses mestres na seguinte ordem, se é que posso chamar isso de ordem: ouça primeiro Haydn, alguns dos primeiros quartetos e alguns dos últimos; então, faça a mesma coisa com os quartetos do Mozart (não esquecer do n.19!); por fim, ouça os primeiros quartetos de Beethoven e alguns exemplos dos late string quartets. O desenvolvimento dessa forma musical, por assim dizer, é nítido. E digo mais, é belíssimo de se ouvir. As alterações na forma são graduais, conscientes, com a certeza na ponta do lápis (ou da pena) do compositor (e tudo isso culmina em Brahms, Schumann, e, finalmente, na Segunda Escola de Viena). Não há movimentos espalhafatosos de gente querendo romper paradigmas para sair bem na capa da revista.

Música de Vanguarda – refiro-me aqui, antes que o leitor levante a sobrancelha em sinal de desconfiança, à sequência de compositores que emerge em especial após a segunda metade do século XX e continua até hoje. E, sim, eles são majoritariamente e abertamente de esquerda. Adivinha onde eles estão? Exato, na universidade, trabalhando como professores de análise, composição, percepção, etc. O que há, então, de conservador nessa música? A meu ver, há no mínimo um elemento em comum entre o conservadorismo e alguns (ao menos alguns…) dos compositores de vanguarda: o respeito à tradição. É certo que, do ponto de vista ideológico, eles defendem figuras que querem mais é queimar bibliotecas, acabar com padrões morais, apagar parte da história. Mas, enquanto compositores, esses camaradas possuem não só um vasto conhecimento da tradição (conhecem a história da música, sabem escrever contraponto, apreciam compositores barrocos, clássicos, românticos, e modernos, enfim…) como almejam dialogar com essa tradição (o que não significa necessariamente que eles atingem esse objetivo). Veja, por exemplo, a música de Flo Menezes ou Luciano Berio (até Adorno, que era compositor, estimava a relevância da tradição musical!)

Até o momento vimos que analisar peças musicais procurando elementos que entreguem seu viés político, seja ele qual for, é em si uma tarefa inglória, de modo que a tentativa dos artistas (músicos) brasileiros engajados com a ideologia esquerdista é um tiro no próprio pé, tomando como referência a Escola de Frankfurt. Vimos ainda que, malgrado a talvez impossibilidade de traduzir no material musical ideologias políticas, há compositores, dos mais variados e do alto escalão, que podem ser identificados de certa forma com o viés conservador – ao menos quando observamos o contexto em que suas obras foram produzidas (a relação de afeto com a Igreja e com a Fé; o convívio respeitoso com a tradição; etc.)

Resta apenas uma observação antes que o leitor feche este texto para visualizar as atualizações na sua rede social (se é que ainda não o fez). Nesse contexto conturbado que vivemos, com (sub)celebridades se passando por artistas, analistas políticos, formadores de opinião e afins, a batalha dos artistas de verdade, e falo agora de todas as artes, não só da música, deve ser impedir que a arte seja politizada – para qualquer um dos lados. Caso a direita impulsionasse uma produção artística nacional que respondesse diretamente aos anseios ideológicos dessa corrente, cairíamos naquilo que mais se critica na esquerda: o fim da vida privada, do pessoal, da natureza humana, da alma. Tudo isso seria diluído na vida estatal que, por sua vez, seria comandada pelos burocratas. Um dos méritos da direita é justamente querer preservar esse âmbito da liberdade individual, onde os cidadãos têm espaço para formarem sua visão de mundo sem terem de responder ao Partido.

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A feminista rechaçada pelas feministas Camille Paglia levanta essa bandeira há algum tempo (vida a entrevista Everything’s awesome but Camille Paglia is unhappy). Para a autora, limitar a arte à agenda dos movimentos sociais é pedir para surgir um novo Hitler ou Stalin. Aliás, sobre esse último, assistam o filme Child 44 e vejam a dissolução da vida privada como a ditadura última. Nada pode ser dito sem que o partido tome conhecimento e, claro, “there is no crime in paradise”, therefore, ou o artista segue a agenda do partido, ou…. Já ouviu falar do Shostakovich?

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(Cena do filme Child 44. Uma família conversa livremente durante o jantar)

O Brasil de Fernando Gabeira

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O perfil do brasileiro malandro incomoda alguns, mas parece agradar a maioria. O famigerado jeitinho, a fama de preguiçoso, o andar gingado dos meus conterrâneos acima de tudo despertam a curiosidade, em especial nos povos que habitam do outro lado do Atlântico. Basta tentarmos acompanhar a passada de um alemão que caminha até a padaria numa manhã dominical para constatarmos que, de fato, somos um povo que se arrasta. Concordo que manhãs de domingo não exigem uma corrida de 100 metros rasos até o mercadinho da esquina e, nesse sentido, é o alemão que perde. Ainda assim, me parece inegável que brasileiros fazem vista grossa e tentam embelezar alguns problemas sérios de caráter que vêm no pacote do jeitinho. No livro O que é isso, companheiro?, do nosso atual ex-deputado Fernando Gabeira, há uma passagem que me soa no mínimo assombrosa:

“Saí correndo de Glasgow para Londres, pedi a passagem de volta à amiga que vivia comigo e ia diariamente à Varig para ver se tinha chegado. Em princípios de dezembro já estava no país. Desci primeiro em Guararapes, para comprar um maço de cigarros e tomar um café. Tinha uma nota de uma libra na mão e valia uns três dólares, creio. Pedi um café, comprei o Continental e perguntei quanto era. O homem do bar olhou para a minha mão e disse: uma libra. Caí na gargalhada e deixei o dinheiro aterrissar suavemente no balcão. Sem dúvida estava chegando ao Brasil e desempenhava com muito prazer o papel de otário.”

Ver graça em uma situação desse tipo exige um senso de humor que, sem dúvida, desconheço totalmente. Mas não é exatamente sobre o “papel de otário” desempenhado pelo senhor Gabeira que eu gostaria de falar. Apesar de este blog não ter como foco a política – e, portanto este texto figura como uma exceção – me sinto na obrigação de falar algo que já foi dito, mas como tudo, precisa ser repetido: OS PRESOS POLÍTICOS DA DIDATURA MILITAR BRASILEIRA NÃO LUTAVAM PELA LIBERDADE E MUITO MENOS PELA DEMOCRACIA. Isso mesmo, escrito em caixa alta. E quem me contou isso em detalhes foi o próprio Fernando Gabeira, no livro acima citado. Aliás, corrijo: é exatamente sobre o “papel de otário” desempenhado pelo senhor Gabeira que eu gostaria de falar.

A gota d’água foi um cartaz que vi circulando nas redes sociais nos últimos dias. Com fotos dos presos políticos, exilados e torturados entre 65-85, a imagem berrava em alto e bom tom que DIDATURA NUNCA MAIS! NÃO ESQUECEREMOS. Em caixa alta, mais uma vez. Ora, alguém deveria acrescentar a palavra MILITAR logo após DITADURA. Exatamente: ditadura militar nunca mais! Rumo à ditadura socialista/comunista! Do ponto de vista político, entendo a necessidade de os partidos de esquerda no Brasil evitarem o tópico “ditadura socialista” focando somente nas atrocidades da ditadura militar. O que me deixa estarrecido é usarem a crítica a governos totalitários (como nossa antiga ditadura) como argumento teórico para criticarem partidos de direita (ou simplesmente decisões políticas ou econômicas que não apetecem certas mentes iluminadas). A ditadura de esquerda no Brasil era almejada  declarada pelos próprios exilados, torturados e presos políticos.

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“Os líderes estudantis faziam um discurso articulado, com princípio, meio e fim. Edson Luís havia sido morto pela polícia que estava a serviço da ditadura, que estava a serviço do capitalismo. Não se tratava apenas de lutar contra a polícia, portanto, mas de participar num combate mais amplo e mais complexo que era o combate pelo socialismo. Ao contrário do que diz a repressão, aqueles líderes não pertenciam às organizações políticas. Mas de alguma maneira refletiam a luta interna cujos temas já haviam transcendido os limites da discussão secreta. Luta pelo socialismo e luta armada estavam portanto na ordem do dia.”

E para os esclarecidos que adoram dizer que não se combate violência com violência, Gabeira afirma que o desejo maior daquela juventude paz e amor era a luta armada. Roubar mercados e bancos (onde trabalhavam pessoas inocentes, aliás. Meras casualidades), falsificação de documentos e outros negócios ilegais (não vou nem falar aqui do tema central do livro, qual seja, o sequestro de um embaixador) não pesam na consciência de Gabeira e seus amigos.

“O sonho de muitos de nós era o de passar logo para um grupo armado. Em nossa mitologia particular, conferíamos aos que faziam esse trabalho todas as qualidades do mundo. Sair do movimento de massas para um grupo armado era como sair da província para a metrópole, ascender de um time da terceira divisão para o campeonato nacional.”

“Às vezes, precisávamos de uma série de documentos que, mesmo com um bom despachante, tomariam meses para serem aprontados, e, com a ajuda dos nossos falsificadores, produzíamos os mesmos documentos em apenas algumas horas.”

E se o leitor acha que ao menos esse grupo tinha bons motivos para agir de tal forma, sinto informar que essa é a parte mais ridícula da situação como um todo. Não havia embasamento teórico de qualquer tipo. Lendo as descrições de Gabeira, acredito que o termo “achismo” seja o mais adequado para indicar o que de fato movia a luta desses pobres diabos.

“As tarefas teóricas praticamente não existiam no horizonte das ocupações cotidianas. Eram vistas com desconfiança, apesar do nível geral ser muito baixo. Nenhum de nós havia lido O capital, nenhum de nós conhecia profundamente a experiência revolucionária em outros países, nenhum de nós, enfim, problematizara algum aspecto do marxismo, ou mesmo inventara um campo novo para pesquisar. Tendíamos a uma concepção muito estreita do movimento e muitos achavam, mesmo, que a ação era tudo. Pessoalmente, ao ler a trilogia de Isaac Deutescher sobre Trotski, fiquei escandalizado com os bolcheviques; Lenin pedira que Stalin fosse à Áustria, fizesse uma pesquisa e produzisse um artigo sobre as nacionalidades. Mesmo sem conhecer o texto de Stalin, achava que aquilo era um luxo, que era uma revolução altamente intelectualizada, comparada com a nossa e com a cubana. A cubana aparecia como o exemplo novo e revitalizador: uma teoria post festum e assim mesmo muito pouca.”

E lembremos que por “nós” Gabeira se refere ao grupo que sequestrou o embaixador norte-americano (no livro há detalhes sobre os momentos tensos que o embaixador passou na mão dos revolucionários…).

Não sei você, leitor, mas eu sintetizaria essa última citação do livro da seguinte forma: Nós revolucionários, lutávamos contra uma ditadura que perpetuava o capitalismo, e buscávamos instalar uma ditadura de esquerda, sem saber exatamente por que o capitalismo era tão ruim, visto que não estudávamos o suficiente e gostávamos de ser tratados como otários no Brasil, e sem saber exatamente como, já que ignorávamos os movimentos internacionais e estávamos ansiosos para iniciar uma luta armada.

Fernando Gabeira tem hoje 75 anos. Entrou para a política e fundou o PV. Até 2011 atuava como Deputado Federal. Algumas das suas pautas são a regulamentação da prostituição, casamento gay e descriminalização da maconha.

Não me pergunte como, mas o revolucionário socialista conseguiu bancar sua educação e parte da vida na Suécia. Aliás, também na Suécia Gabeira encontrou outra revolucionária com quem se casou. Após o divórcio, se casou com uma estilista e, atualmente, sua terceira esposa é atriz e empresária. Uma de suas filhas é surfista profissional.

Eu poderia salientar o quão irônico é o fato de um revolucionário da esquerda brasileira ter morado, estudado, e casado em uma das cidades mais caras do mundo; poderia ainda chamar a atenção do leitor para as profissões exercidas pelas parceiras de Gabeira e também pela sua filha, que ganha a vida estampando marcas de multinacionais (me refiro aos patrocínios); mas acredito que se o brasileiro não percebeu ainda nosso papel de otário, é porque partilha do senso de humor de Gabeira.