Breve nota sobre a cultura do estupro. Ou: por que o nadador importa.

1 nadador

Assim inicia Nelson Rodrigues uma de suas crônicas:

“Ontem, o meu fraterno colega entrevistou uma psicanalista sobre um dos problemas mais agudos do nosso tempo: — a juventude. E aí começa o equívoco. “Do nosso tempo” por quê? O jovem sempre foi problemático e, se não é problemático, estejamos certos: — trata-se de um débil mental que deve ser amarrado num pé de mesa. Vamos dar graças a Deus que a nossa juventude tenha um drama, uma angústia, uma tensão dionisíaca ou demoníaca, sei lá.

Mas a psicanalista começa a falar e logo percebemos o seu raro brilho e o seu casto saber. Por que o jovem está inquieto, tenso, vibrante, explosivo, perplexo e ameaçador? A culpa é da sociedade e da família. Quanto ao próprio jovem, a entrevistada não faz uma tênue insinuação ou uma vaga referência. O que importa é apenas a situação social. Como reles coadjuvante, a situação familiar.

E eu então vi subitamente tudo. Imaginei que, diante de uma prova de natação, a psicanalista havia de concluir: — “Quem nada é a piscina e não o nadador.” Minha vontade foi bater o telefone para a TV Globo e dizer: — “Minha senhora, não se esqueça do nadador.” Se vocês admitirem a comparação, eu diria que há, sim, um nadador no problema da juventude. Sim, o que está por trás da família, da sociedade, das gerações é um velho conhecido nosso, ou seja: — o homem.”

À guisa de explicação: não podemos esquecer que o personagem principal (leia-se “culpado”) de um estupro é o nadador, digo, o estuprador.

O Brasil de Fernando Gabeira

Fernando_Gabeira

O perfil do brasileiro malandro incomoda alguns, mas parece agradar a maioria. O famigerado jeitinho, a fama de preguiçoso, o andar gingado dos meus conterrâneos acima de tudo despertam a curiosidade, em especial nos povos que habitam do outro lado do Atlântico. Basta tentarmos acompanhar a passada de um alemão que caminha até a padaria numa manhã dominical para constatarmos que, de fato, somos um povo que se arrasta. Concordo que manhãs de domingo não exigem uma corrida de 100 metros rasos até o mercadinho da esquina e, nesse sentido, é o alemão que perde. Ainda assim, me parece inegável que brasileiros fazem vista grossa e tentam embelezar alguns problemas sérios de caráter que vêm no pacote do jeitinho. No livro O que é isso, companheiro?, do nosso atual ex-deputado Fernando Gabeira, há uma passagem que me soa no mínimo assombrosa:

“Saí correndo de Glasgow para Londres, pedi a passagem de volta à amiga que vivia comigo e ia diariamente à Varig para ver se tinha chegado. Em princípios de dezembro já estava no país. Desci primeiro em Guararapes, para comprar um maço de cigarros e tomar um café. Tinha uma nota de uma libra na mão e valia uns três dólares, creio. Pedi um café, comprei o Continental e perguntei quanto era. O homem do bar olhou para a minha mão e disse: uma libra. Caí na gargalhada e deixei o dinheiro aterrissar suavemente no balcão. Sem dúvida estava chegando ao Brasil e desempenhava com muito prazer o papel de otário.”

Ver graça em uma situação desse tipo exige um senso de humor que, sem dúvida, desconheço totalmente. Mas não é exatamente sobre o “papel de otário” desempenhado pelo senhor Gabeira que eu gostaria de falar. Apesar de este blog não ter como foco a política – e, portanto este texto figura como uma exceção – me sinto na obrigação de falar algo que já foi dito, mas como tudo, precisa ser repetido: OS PRESOS POLÍTICOS DA DIDATURA MILITAR BRASILEIRA NÃO LUTAVAM PELA LIBERDADE E MUITO MENOS PELA DEMOCRACIA. Isso mesmo, escrito em caixa alta. E quem me contou isso em detalhes foi o próprio Fernando Gabeira, no livro acima citado. Aliás, corrijo: é exatamente sobre o “papel de otário” desempenhado pelo senhor Gabeira que eu gostaria de falar.

A gota d’água foi um cartaz que vi circulando nas redes sociais nos últimos dias. Com fotos dos presos políticos, exilados e torturados entre 65-85, a imagem berrava em alto e bom tom que DIDATURA NUNCA MAIS! NÃO ESQUECEREMOS. Em caixa alta, mais uma vez. Ora, alguém deveria acrescentar a palavra MILITAR logo após DITADURA. Exatamente: ditadura militar nunca mais! Rumo à ditadura socialista/comunista! Do ponto de vista político, entendo a necessidade de os partidos de esquerda no Brasil evitarem o tópico “ditadura socialista” focando somente nas atrocidades da ditadura militar. O que me deixa estarrecido é usarem a crítica a governos totalitários (como nossa antiga ditadura) como argumento teórico para criticarem partidos de direita (ou simplesmente decisões políticas ou econômicas que não apetecem certas mentes iluminadas). A ditadura de esquerda no Brasil era almejada  declarada pelos próprios exilados, torturados e presos políticos.

ditadura

“Os líderes estudantis faziam um discurso articulado, com princípio, meio e fim. Edson Luís havia sido morto pela polícia que estava a serviço da ditadura, que estava a serviço do capitalismo. Não se tratava apenas de lutar contra a polícia, portanto, mas de participar num combate mais amplo e mais complexo que era o combate pelo socialismo. Ao contrário do que diz a repressão, aqueles líderes não pertenciam às organizações políticas. Mas de alguma maneira refletiam a luta interna cujos temas já haviam transcendido os limites da discussão secreta. Luta pelo socialismo e luta armada estavam portanto na ordem do dia.”

E para os esclarecidos que adoram dizer que não se combate violência com violência, Gabeira afirma que o desejo maior daquela juventude paz e amor era a luta armada. Roubar mercados e bancos (onde trabalhavam pessoas inocentes, aliás. Meras casualidades), falsificação de documentos e outros negócios ilegais (não vou nem falar aqui do tema central do livro, qual seja, o sequestro de um embaixador) não pesam na consciência de Gabeira e seus amigos.

“O sonho de muitos de nós era o de passar logo para um grupo armado. Em nossa mitologia particular, conferíamos aos que faziam esse trabalho todas as qualidades do mundo. Sair do movimento de massas para um grupo armado era como sair da província para a metrópole, ascender de um time da terceira divisão para o campeonato nacional.”

“Às vezes, precisávamos de uma série de documentos que, mesmo com um bom despachante, tomariam meses para serem aprontados, e, com a ajuda dos nossos falsificadores, produzíamos os mesmos documentos em apenas algumas horas.”

E se o leitor acha que ao menos esse grupo tinha bons motivos para agir de tal forma, sinto informar que essa é a parte mais ridícula da situação como um todo. Não havia embasamento teórico de qualquer tipo. Lendo as descrições de Gabeira, acredito que o termo “achismo” seja o mais adequado para indicar o que de fato movia a luta desses pobres diabos.

“As tarefas teóricas praticamente não existiam no horizonte das ocupações cotidianas. Eram vistas com desconfiança, apesar do nível geral ser muito baixo. Nenhum de nós havia lido O capital, nenhum de nós conhecia profundamente a experiência revolucionária em outros países, nenhum de nós, enfim, problematizara algum aspecto do marxismo, ou mesmo inventara um campo novo para pesquisar. Tendíamos a uma concepção muito estreita do movimento e muitos achavam, mesmo, que a ação era tudo. Pessoalmente, ao ler a trilogia de Isaac Deutescher sobre Trotski, fiquei escandalizado com os bolcheviques; Lenin pedira que Stalin fosse à Áustria, fizesse uma pesquisa e produzisse um artigo sobre as nacionalidades. Mesmo sem conhecer o texto de Stalin, achava que aquilo era um luxo, que era uma revolução altamente intelectualizada, comparada com a nossa e com a cubana. A cubana aparecia como o exemplo novo e revitalizador: uma teoria post festum e assim mesmo muito pouca.”

E lembremos que por “nós” Gabeira se refere ao grupo que sequestrou o embaixador norte-americano (no livro há detalhes sobre os momentos tensos que o embaixador passou na mão dos revolucionários…).

Não sei você, leitor, mas eu sintetizaria essa última citação do livro da seguinte forma: Nós revolucionários, lutávamos contra uma ditadura que perpetuava o capitalismo, e buscávamos instalar uma ditadura de esquerda, sem saber exatamente por que o capitalismo era tão ruim, visto que não estudávamos o suficiente e gostávamos de ser tratados como otários no Brasil, e sem saber exatamente como, já que ignorávamos os movimentos internacionais e estávamos ansiosos para iniciar uma luta armada.

Fernando Gabeira tem hoje 75 anos. Entrou para a política e fundou o PV. Até 2011 atuava como Deputado Federal. Algumas das suas pautas são a regulamentação da prostituição, casamento gay e descriminalização da maconha.

Não me pergunte como, mas o revolucionário socialista conseguiu bancar sua educação e parte da vida na Suécia. Aliás, também na Suécia Gabeira encontrou outra revolucionária com quem se casou. Após o divórcio, se casou com uma estilista e, atualmente, sua terceira esposa é atriz e empresária. Uma de suas filhas é surfista profissional.

Eu poderia salientar o quão irônico é o fato de um revolucionário da esquerda brasileira ter morado, estudado, e casado em uma das cidades mais caras do mundo; poderia ainda chamar a atenção do leitor para as profissões exercidas pelas parceiras de Gabeira e também pela sua filha, que ganha a vida estampando marcas de multinacionais (me refiro aos patrocínios); mas acredito que se o brasileiro não percebeu ainda nosso papel de otário, é porque partilha do senso de humor de Gabeira.

A Pátria de Chuteiras Revisitada. Ou: lições do 7×1

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“Jamais, em toda a experiência do Chile, o tcheco ou o inglês entendeu os nossos patrícios. Para nos vencer, o alemão ou o suíço teria de passar várias encarnações aqui. Teria que nascer em Vila Isabel, ou Vaz Lobo. Precisaria ser camelô no largo da Carioca. Precisaria de toda uma vivência de botecos, de gafieira, de cachaça, de malandragem geral.”

Amigos (não poderia haver início melhor para um blog do que a saudação de Nelson Rodrigues em suas crônicas: Amigos!), confesso que a primeira coisa que me chamou a atenção nos ensaios de Nelson Rodrigues reunidos no livro A Pátria de Chuteiras foi o uso da palavra escrete. Mas para além do meu vocabulário limitado, as análises sobre o futebol, mais especificamente sobre nossa seleção, que aparecem no tal livro causaram uma verdadeira reviravolta no espírito saudador de Messi (e até mesmo de Di(mais) Maria! devo confessar) e crítico de Neymar deste que voz escreve.

Pois eis que a cada nova página do livro, minha intenção de escrever um breve ensaio para gritar aos quatro cantos que Nelson errou quando disse o que disse sobre nosso futebol se transformava em autocrítica, ficando cada vez mais claro que errado estava eu.

Uma ressalva fundamental: quando Nelson vibra com a suavidade e honestidade (sim, honestidade!) dos jogadores brasileiros frente aos adversários europeus, confesso que me arrepiam os pelos da nuca. E nesse caso, minha perspectiva revisionista ganha força.

“o craque brasileiro é muito mais doce, mais educado, mais cavalheiresco do que o europeu. E argumentei com o nosso comportamento exemplar nos três últimos Campeonatos Mundiais. Nas três oportunidades, o brasileiro foi inexcedível na sua conduta disciplinar. Ninguém se lembra de um foul desleal dos nossos. Em 58, contra a França, fomos garfados da maneira mais deslavada. Tivemos que fazer três gols para que um valesse.”

Basta comparar o desempenho dos brasileiros jogando na Europa (vide Neymar e Messi, ambos no Barcelona) para questionarmos: Será mesmo, Nelson? Aliás, o fair play que acompanhamos nos campeonatos e copas da Alemanha continuam fazendo qualquer brasileiro morrer de vergonha ao assistir a Copa Libertadores da América. Pois é, Nelson – melhor aceitarmos que essa crônica ficou limitada àquele ano.

Mas eu ia dizendo que as páginas do livro me faziam mudar de ideia pouco a pouco. Explico. E explico filosoficamente: Hegel dizia que todos os grandes eventos da história sempre acontecem duas vezes; e Marx completou que na primeira vez eles aparecem como tragédia, e na segunda, como farsa. Ora, mas eis que a enxurrada de críticas avacalhando o escrete brasileiro pós 7×1 não é novidade. E pior: aconteceu quando o escrete galgava seu caminho de glória, com ninguém menos que Pelé e Garrincha!

E é nesse ponto que aparece a perspicácia de um Nelson Rodrigues. O gajo já sabia que não importa o quanto os europeus estudem, analisem e tentem desmontar nosso futebol. At the end of the day, a individualidade de um Neymar (não esqueçamos de Douglas Costa, Gabi Gol, Gabriel Jesus…) ainda é capaz de trazer o caneco para casa. Concordo que depois do supracitado resultado vergonhoso da semifinal da Copa de 2015 é difícil não dar o braço a torcer para a superioridade do futebol coletivista, de estratégias dignas de um engenheiro – me refiro, claro ao futebol Alemão. Mas eu avisei; aliás, Nelson avisou: isso não é novidade! E esses críticos estão redondamente equivocados:

“Mas vejamos as suas verdades. Diz ele que a Copa do Mundo de 66 veio trazer o “futebol brasileiro à realidade”. Ao ouvir falar em “realidade”, poderíamos perguntar: — “Qual delas?” E, então, Chirol explica a “sua” realidade. Diz textualmente: — “O personalismo não é mais concebido dentro de uma equipe, e sim o coletivismo.” Percebe-se que, ao falar assim, o simpático treinador vibra de certeza inapelável e eterna.”

“A meu ver, a teoria do Chirol apresenta dois defeitos: — primeiro, é inexequível; segundo, é indesejável. No dia em que desaparecerem os Pelés, os Garrinchas, as estrelas, enfim, será a morte do futebol brasileiro. E, além disso, no dia em que desaparecerem as dessemelhanças individuais — será a morte do próprio homem. Amigos, não sei se bem entendi. Mas para fazer o seu futebol impessoal e coletivista, o caro Chirol terá de preliminarmente mudar o homem. Para isso, terá que pedir à diretoria do clube uns vinte séculos ou mais. Note-se, porém: — antes dele, Cristo tentou a mesma coisa e fracassou. Os pulhas estão aí, impunes e bem-sucedidos.”

E se não é essa a crítica proferida pela pátria amada pós 7×1. E para finalizar esse texto introdutório, mais algumas pérolas observadas por Nelson e que seguem na boca dos entendidos de futebol do Brasil:

“Hoje, vou fazer do escrete o meu numeroso personagem da semana. Os jogadores já partiram e o Brasil vacila entre o pessimismo mais obtuso e a esperança mais frenética. Nas esquinas, nos botecos, por toda a parte, há quem esbraveje: — “O Brasil não vai nem se classificar!” E, aqui, eu pergunto: — não será esta atitude negativa o disfarce de um otimismo inconfesso e envergonhado?”

“Em 58, na véspera de Brasil x Rússia, entrei na redação. Tiro o paletó, arregaço as mangas e pergunto a um companheiro: — “Quem ganha amanhã?” Vira-se para mim, mascando um pau de fósforo. Responde: — “Ganha a Rússia, porque o brasileiro não tem caráter.””

Em poucos meses nosso escrete entra em campo para, quem sabe, lembrar o brasileiro de que, mesmo aos trancos e barrancos, somos nós os penta campeões. Seja a tese de Nelson sobre o futebol comprovada novamente ou não, os ensaios reunidos em A Pátria de Chuteiras seguem interessantes, se não pelo futebol, ao menos pelo de Brasil retratado por Nelson.